

BRASIL, Nordeste, TERESINA, Mulher, de 15 a 19 anos, Portuguese, English, Livros, Política, do Garibaldo, da Ino Y. e de bichanos!!!
"O sono da razão produz monstros", gravura de Goya.
Faz muito tempo isso.
Havia sido uma daquelas aulas-passeio bastante proveitosas, muito divertida. Tipo aquela em que fomos para um sítio do Pe. Tony em virtude de um retiro espiritual, ou como aquela outra em que visitamos a fábrica de bicicletas da Houston. Só que o dia já estava findando e nós tínhamos que voltar. É, sempre chega a hora em que a coisa tem que acabar.
Mas não me lembro de nenhum "Oh, puxa!" ou de algum "Mas, professor...", daqueles bem caídos pela frustração. Pelo contrário: Saímos felizes e contentes pelo passeio bem sucedido. A bata do nosso professor ondulava-se no ar, animada pela brisa, enquanto este procurava a chave e, em seguida, abria o carro. Parecia que o sol emprestava uma aura luminosa a todos, como se fôssemos espelhos. Será que comigo também ocorria assim?
Entramos todos no pequeno carro do professor, ele mesmo se encarregaria de deixar-nos, um a um, na porta de casa. Eu, já que era uma mania minha, me acomodei logo no banca da frente, o do passageiro. Partimos. O local onde se deu nossa aula-passeio não era fora da cidade, o tempo todo o percurso seria rechado de casas, predios, lojas, placas, avenidas bem asfaltas e sinalizadas.
Como, aliás, já estava sendo.
- Professor. - virei-me para ele, a certa altura do caminho - É verdade que você me acha sua melhor aluna?
- Sim.
- É verdade? Sou mesmo sua melhor aluna? - Puxa, será que eu estava com um surto de "tá se achando" naquele dia? Meu sorriso, inclusive, ficara bem largo enquanto eu perguntava.
- Sim, é verdade. - Ele se virou, sorrindo, para mim.
A turma vibrou bastante lá atrás. Interessante, não houve nenhum bufar de inveja ou algo parecido por parte de meus colegas, só mesmo a vibração. Eu voltei a olhar a vida que passava velozmente, mais pela velocidade do carro, lá fora. Com certeza, meu professor já havia voltado a prestar atenção na rua, com o sorriso ainda preso na face, imagino. Também, ele estava sorrindo muito hoje, o dia deve estar bastante bonito...
Aliás, o dia estava mesmo bonito, o povo da minha sala fazia aquela alegre barulheira de sempre, Teresina resplandecia enquanto passava pela janelinha do carro... Então, por que esse cinza? As coisas que estavam diante de meus olhos estavam pálidas, murchas, foscas... Por que essa melancolia? Eu sorri durante o dia todo, sorri há poucos minutos e ainda tenho energia e vontade para sorrir quantas vezes quiser até o dia acabar. E sorrir sinceramente, aquela sinceridade que os fatos te emprestam junto com a vontade de dar um sorriso. Porém, estava realmente tudo estranhamente lúgubre, que antítese.
Olhei para o professor, que a essa altura já estava sério, mas ainda exalava o cheiro do sorriso de quando fiz aquelas perguntas. Era culpa dele.
Não, eu não deveria culpá-lo. Até porque ele era a maior vítima de tudo. Na verdade, todo o cinza que estava misturando-se com a luminosidade natural do dia e subjugando-a era porque eu sabia. Sabia que algo estava errado... com ele. E muito errado. No fundo, eu também sabia o que havia de tão errado. Mas, sei lá, não falei anteriormente que as coisas estavam foscas? Pensando bem, foi agora que veio toda essa lugubridade (essa palavra existe?), na hora em que perguntei se ele me considerava sua melhor aluna, inclusive, já estava assim.
Até me pus a questionar os motivos que me levaram a perguntar aquilo. Na hora, eu precisava bastante da resposta dele, e somente a dele. Mas qual a razão? Será porque ouvir tal coisa do professor em questão eu jamais... Esquece.
- Chegou.
Saí do carro tão logo ele parou na frente do hotel onde eu e mamãe morávamos. Despedi-me do professor, dos colegas que ainda estavam dentro do automóvel e este partiu com eu ainda na calçada da rua. E com uma leve impressão de que algum dos meus amigos pegou o meu lugar na frente pouco após eu ter saído. Ora, quem não o faria?
Entrei, atravessei o hall, peguei o elevador, tornei à consciência (quando se passa várias vezes por um mesmo caminho, nem se presta mais atenção nele) quando já estava em frente à porta do quarto número tal, mamãe foi quem abriu para mim e no mais todas essas coisas comuns que acontecem quando a gente chega em casa. Todo mundo sabe como é.
A noite caiu e, por algum motivo, eu ainda não havia tirado a farda e nem soltado o cabelo. E sentada na cama impecavelmente arrumada. E aquela "caixa falante" ligada, iria começar mais um bloco do Piauí TV 2º edição. Não tem aqueles noticiários locais que passam depois da novela das seis e antes da novela das sete? É este. O desenrolar da notícia que estava a ser apresentada pela jornalista que estava na bancada acabou me levando a olhar para o televisor.
Parecia que foi um acidente. Que ocorrera agora há pouco, segundo a jornalista, na avenida tal. O carro bateu num...
Eu sabia.
...ficou totalmente avariado. O motorista (pouco antes disseram o nome completo do sujeito) e único ocupante não resistiu aos ferimentos.
Eu sabia. Eu sabia. Eu sabia. Voltei a ficar de costas para a tevê, e ela continuando a falar por trás de mim. Eu sabia.
Meu professor estava muito mal. Ele nunca deixou transparecer um só traço de tristeza ou um sinal de que estava sofrendo, quando ele ficava muito sério parecia ser por conta das brincadeiras em excesso da turma ou só por ficar pensando em nada mesmo. Porém, ele estava doente. Após ter deixado todos os alunos em suas casas e já se encontrava voltando para a própria, ele teve uma crise por conta de seu mal e perdeu o controle do carro. Só teve tempo de olhar para a frente e pressentir o fim.
Agora ele estava morto.
Não chorei, acho que porque sou racional demais a ponto de às vezes não demonstrar minhas emoções. Mas senti, não poderia deixar de sentir. E um perfil negro, curvado, fundia-se à cama onde se encontrava sentado em uma só escuridão. Não existia mais cinza, agora era o preto. O preto absoluto, mais preto que a noite que vinha de fora e que entrava pela janela de vidro, destacando as duas formas fundidas. E no segundo seguinte, dei de cara com a lâmpada do meu quarto.
Eu tenho um quarto próprio, um dos cômodos da minha casa... Eu tinha sonhado, oras! Sonhado! Demorou alguns segundos após eu ter aberto os olhos para cair completamente a ficha. Para começar, eu não moro em um hotel, já morei uma vez, mas atualmente não. Também não aconteceu aula-passeio nenhuma, a última vez havia sido já há um bom tempo atrás. E como é que uma turma de 30 e poucos alunos cabe dentro de um carro pequeno? O colégio sempre precisou arranjar um ônibus quando nos queria levar para um lugar diferente. E o professor? Ele existia sim, e estava muito, mas muito vivo. Vivo até hoje. E com muita saúde! Decerto deve estar se arrumando para mais um dia de trabalho.
Aliás, era isso que eu deveria fazer naquele momento. Me levantei da cama.
Durante todo o percurso até o meu colégio, fiquei pensando no sonho. Será que eu deveria classificá-lo como pesadelo? Bem, eu não acordei assustada, suando frio, mas o sonho era sombrio, pesado, depressivo até. Que seja! O fato é que eu não gostaria de perder nenhum de meus professores. Todas eles são pessoas muito amáveis, competentes na profissão e companheiras, que Deus dê muitos anos de vida a todos eles!
Seria realmente muito bom se, daqui a uns dez anos, eu estar como uma profissional bem sucedida e, de repente, topar com eles por aí. Pena é que, sei, isso não será possível com todos eles. Bastante tempo após eu ter tido o sonho que acabei de contar, realmente um dos nossos professores nos deixou.
Aconteceu há alguns meses atrás. Uma colega me ligara avisando do falecimento, disse também que não haveria aula no dia seguinte. Ele era um professor tão bom, sabem. Uma grande figura e um profissional excelente. A gente sente quando se perde um professor porque, de certa forma, esses sujeitos que vestem batas brancas e que batem o pincel no quadro quando nós estamos atrapalhando demais são como parentes queridos nossos, as pessoas que têm suas vidas ligadas a um colégio acabam formando uma grande família. Eles são... mesmo que não pareça, de vez em quando... nossos grandes amigos.
E eis que, no Dia do Professor, as fotos de todos os professores do meu colégio estavam coladas em discos, CD's, que ficavam pendurados no teto do pátio. E, dentre todos, havia um que era diferente. Era um disco de vinil, grande. Com a foto de quem conviveu conosco por tempo o suficiente para nos deixar uma marquinha no coração.
Foto do meu material escolar (exceto os paradidáticos) para o 3º ano do Ensino Médio. Foi tirada antes do início das aulas.
Eu tinha acabado de deixar o carro para trás, estava com a mochila nas costas, fichário debaixo do braço e prestes a passar pelo portão (?) do meu colégio... quase atropelo uma menininha. Puxa, ela havia aparecido de repente na porta e, se eu estivesse mais apressada, certamente derrubaria a pequena. Deus é pai!
Ela, em altura, mal ultrapassava meus joelhos. Provavelmente, eu tinha tamanho semelhante naquela vez em que entraram umas três ou quatro garotas na sala onde eu cumpria as obrigações escolares que me eram dadas na época. Elas tinham vindo anunciar um evento, do qual não me lembro sequer se era do colégio. Deviam ser da 8º série, elas.
Engraçado como as situações se repetem. Duas pessoas, uma mais crescida do que a outra, ambas com o fardamento do colégio. Mas as posições se inverteram: agora a grande era eu.
Era uma quinta-feira, à noite, e eu, ainda no colégio, resolvi brincar um pouco com a minha garrafinha squeeze, jogando para cima a fim de ver a altura máxima que ela alcança. Vai que ela atinge o céu... parecia que ela ia conseguir, de tão alto que eu conseguia jogá-la. Era uma garrafinha que os professores haviam ganhado no tão especial 15 de outubro - mais adiante eu digo o porquê - e que só agora a direção resolveu dar aos alunos.
Essa era a novidade que tínhamos naqueles meados de outubro. O resto, a mesma coisa: Você é incessantemente colocado para treinar sua mira, o ângulo exato da arma, o momento de apertar o gatilho... Tudo para que você acerte o tão vistoso patinho que põem diante da sua pessoa, patinho que vai fazer de tudo para escapar da sua bala e das balas de seus concorrentes. Esforço inútil o do alvo, ele sempre vai terminar a batalha vencido. A questão é: quem o fulminou? E esse pessoa precisa ser... você! Não tem jeito. Você esteve sendo preparado durante uma vida inteira para quando estiver frente a frente com o pato e, agora, o tal momento chegou.
É o que aconteceu comigo e com os meus colegas nesses últimos tempos. Ele bateu em nossas portas justo a partir desse mesmo final de outubro, não em relação ao ENEM que era para ter ocorrido e não ocorreu, mas sim porque a faculdade Santo Agostinho abriu as inscrições. Lá era oferecido o curso que eu queria, mas hesitei, essa faculdade ficava muito longe da minha casa. Acabei não fazendo.
Na lista de aprovados da Santo Agostinho, apareceu o nome de duas colegas minhas. E uma delas vive carregando consigo não a garrafinha que nós ganhamos do colégio, mas sim a que ela ganhou ao fazer a matrícula.
Analisando a situação, penso que a Santo Agostinho foi meio, digamos, do contra, já que seu vestibular ocorreu bem antes dos das outras faculdades particulares. O boom das oportunidades se daria nos dias 7 e 8 de novembro, quando seriam aplicadas as provas das faculdades Novafapi, Camilo Filho, Facid, FAP e CEUT. De todas, apenas essa última oferecia o curso de Jornalismo, e somente no turno da noite. Fiz minha inscrição e fui esperar pelas 17h do dia 8 de novembro. Por isso, eu não postei como de costume no último domingo. A prova aconteceria bem no horário em que costumo postar.
De fato, uma excelente surpresa! Quem é que esperava que apareceria uma feirinha de livros no pátio de nosso colégio? Talvez só a direção e os da livraria Anchieta, que foi quem levou a feirinha até nós. Na nossa frente, "A menina que roubava livros", "Diário de princesa", "Crepúsculo", "A Mediadora" e vários outros títulos que fazem a nossa festa. Ironicamente, ainda não li nenhum desses livros, apesar de eu gostar muito de ler. E parece que não seria dessa vez que eu comecaria: odiei os preços.
De imediato, corri ao orelhão para ligar ao meu pai, dizer da feirinha e, é claro, pedir 20 reais para gastar comprando algum livro. Dos que seria possível levar por tal quantia, achei interessante "O Outro", de Bernhard Schlink. Basicamente, é a história de um homem cuja esposa morre e que depois descobre que ela o traía. Levei o livro e devorei-o na noite do mesmo dia. No fim das contas, foi mais-ou-menos. Nos encontros do protagonista com o amante da esposa, inclusive, a narrativa é de tal forma que o leitor muitas vezes fica sem saber quem é que está fazendo coisa tal, falando coisa tal...
Mesmo que a aquisição não tenha me agradado muito, ao menos, uma coisa salvava tudo: Junto com o livro, ganhei um papel onde eu deveria colocar meu nome e outros dados pessoais, para depois depositá-lo em uma caixa para que se realize o sorteio! O ganhador leva para casa um determinado valor em dinheiro para depois ir à livraria Anchieta e torrar tudo em livros.
Claro que eu quis participar! Preenchi meu papelzinho e o levei para o colégio no dia seguinte. E então fui até a feirinha depositá-lo na urna e... o sorteio já havia acontecido. Admito, tive culpa, pois enrolei muito antes de ir deixar meu papel, achei que se o pusesse por último eu teria mais chances... Mas também havia ocorrido uma reunião dos professores que embaralhou todo o nosso horário. Droga!
Insisti e insisti com meu pai que, do portão da CEUT até a minha sala, eu deveria seguir sozinha. Onde já se viu, garotas já grandinhas devem resolver por conta própria suas coisas! Mesmo assim, ele foi comigo até a escada...
A sala era a número 12, no 2º andar. Coincidentemente, a mesma sala onde também ralaram dois colegas meus, só que eles eram do 3º B, eu sou do A. Que seja! Colegas de sala eu encontraria pelos corredores da faculdade assim que eu terminasse minha prova. Pelo visto, a grande noiva dentre os cursos era Direito, ao menos dentre os cursos da área de Humanas. Vejam só: o sujeito que iria se sentar à minha frente, o que se sentaria atrás, e o da direita mais o da esquerda, todos queriam cursar Direito! Reparei nisso ao ver as etiquetinhas que estavam grudadas sobre cada uma das cadeiras, com os dados de cada candidato.
Provas I, II e III, na verdade, um único caderno de questões. Primeiro Português e Literatura, depois Redação, e então Inglês, Matemática, e finalmente Geografia e História. Não respondi a prova nessa ordem.
Felizmente, sou calma. Não sou o tipo de pessoa que tem tiques de ansiedade quando vai resolver provas do tipo. Mesmo assim, saí insegura da sala. Deve ser normal, já que, apesar de tudo, devo ter feito uma prova melhor do que muita gente que encarou aquelas mesmas questões. O meu problema era com a Matemática e com a Redação. A primeira, bem, todo mundo sabe que as contas são o meu calo. Já a segunda é problemática porque sempre acho que minhas redações são ruins, apesar de meu professor de Redação viver afirmando o contrário. Pelo menos, depois de tudo, ver a concorrência para o curso de Jornalismo, afixada junto às outras num mural da faculdade, me animou. Era baixíssima, baixíssima ao ponto de me fazer pensar "Já passei!".
Confesso que não liguei para o meu pai logo após ter terminado a prova. Antes disso, resolvi explorar o lugar. Pode acontecer de eu passar 4 anos da minha vida alí, melhor conhecer cada cantinho da faculdade. Acabei descobrindo uma particularidade: na CEUT vivem muitos bichanos, todos sociáveis e dóceis. Até cheguei bastante perto de um. Falou-me uma senhora que trabalha lá que, de manhã cedo, é possível ver os gatos descansando nos bancos e os universitários ao lado, às vezes acariciando os felinos... Ah, se é assim, pagar 400 reais todo mês deve mesmo valer a pena, vocês sabem que eu adoro gatos. Isso sem falar no curso e no jornalzinho Matraca, onde os futuros jornalistas põem a mão na massa.
Voltei para casa às 21h30 e ainda tive tempo de verificar se a postagem nova do blog já havia recebido comentários.
Para o Dia do Professor, eu havia preparado duas surpresas: uma for one e outra for all. Se bem que a segunda não estava tão preparada assim. Era uma música, a meu ver, muito bonita, mas que nenhum dos ritmos contidos nos meu teclado se adequava a ela. O problema estava no compasso da música. O jeito era se contentar só com a primeira, que estava personificada num embrulho colorido e de tamanho médio que estava guardado na parte superior do meu armário.
O plano já havia sido todo devidamente traçado. No dia anterior, consegui descobrir, como quem não quer nada, a sala onde estaria, durante o 1º horário, o professor que eu queria homenagear. Falei ao professor que estava na minha sala, o de Geografia do Brasil, sobre o embrulho e pedi para que me deixasse executar o plano enquanto os meus colegas de dirigiriam para a sala de vídeo. Não tive problemas nessa parte, aliás, como não tive em nenhuma outra.
Fui então até a sala da 6º série A, bati algumas vezes na porta e passei um bilhete por debaixo desta. Corri para não ser vista caso alguém a abrisse, e esperei. Só me arrependo de não ter olhado pelo vidro da janela o que se passava dentro da sala, a bedel precisou me avisar que o professor estava vindo e, mesmo assim, só consegui me posicionar em frente a porta quando ele já havia girado a maçaneta. Mas não seriam milionésimos de segundo que estragariam a surpresa que eu iria fazer. A entrega do presente foi um sucesso!
Não ficou nisso. Na hora da homenagem oficial do colégio aos professores, minha colega Elis pediu-me o favor de ler um texto durante a celebração. Bem, eu aceitei. E eis que chega a hora de eu me levantar de onde estava sentada e ir lá na frente fazer o que tinha de ser feito. No fim das contas, era a homenagem for all que eu havia perdido mas que voltou sob outra forma. Todo mundo adorou o texto, tanto que ele foi parar no mural da sala dos professores e de lá até agora não saiu.
O engraçado é que eu fiquei com o mérito pela apresentação. Não achei justo, aquilo foi uma homenagem de toda uma turma, o 3º ano A.
Eu queria muito que o resultado do vestibular da CEUT saísse enquanto eu estivesse no colégio, mas não imaginei que o saberia tão logo eu pusesse os pés por lá. Enquanto eu subia as escadas, dirigindo-se à minha sala, um colega já foi me dando os parabéns, me falou que eu passei. Duas aulas depois, eu fui ver as listas de aprovados que se encontravam no mural do pátio mas não encontrei a da CEUT dentre elas. É que esta estava ainda na coordenação, com os nomes do colégio sendo enfatizados com marcador amarelo.
No fim das contas, eu atirei, domingo. Ouviu-se o barulho de bala lançada... E O CHOQUE DA MESMA AO ACERTAR O PATO!!! EU PASSEI, MINHA GENTE!!! Lá estava o meu nome completo na lista! Já que é assim, fui ao banheiro e troquei a costumeira fivela que uso no meu cabelo por uma bandana ninja. Sim, é aquela que veio em um ovo de páscoa do Naruto! Ora, uma atiradora de elite que se preze tem que usar algo que simbolize a vitória. Como não ficaria bem em mim caso a colocasse na testa, a usei como uma traca, bem ao estilo Sakura Haruno de se usar bandanas.
Os resultados de todas aquelas faculdades cujas provas foram no fim de semana anterior causaram uma explosão de alegria durante aquele dia. Em seguida, o que se viu foi o show das tesouras insanas, famintas por cabelos de vestibulandos aprovados. O que apareceu de cabeleira destroçada não está no gibi. No dia seguinte, as mesmas cabeças apareceriam carecas.
Como eu fiquei de cabelo solto durante o resto do dia, meus colegas ficaram me comparando com a Helena da novela "Viver a vida" (se bem que também sou Helena, mas com um Juliana na frente) e pediram para eu desfilar. Três vezes. Mais tarde, tentei dividir com meu professor de História Geral a bandana, mas ele não quis. Só a pôs na testa e segurou atrás por alguns segundos. E eu tendo que ajeitar meu penteado de novo. Pensam que colocar uma bandana é fácil para mim, que tenho cabelo longo?
Não a usei apenas no colégio. Na noite do mesmo dia, houve uma festa em um restaurante próximo ao colégio, tudo organizado por uma colega que também passara no vestibular, só que para outra faculdade. Foi ótimo, apesar de a comida ter demorado bastante. Obviamente, não dispensei a bandana. Na hora de ir embora, descobri que, num restaurante ao lado, outra colega minha festejava sua aprovação. Ao menos deixei meu abraço e meus parabéns.
Também usei a bandana quando me chamaram, anteontem, para tirarem minha foto. Ela, assim como as dos outros aprovados, vai parar em um disco em cujo verso estará escrito o nome do curso que farei e da faculdade em que passei. E todos os discos serão pendurados no teto do pátio do colégio. Coisa parecida foi feita com os professores no mês passado.
Passar na CEUT me garante que, em 2010, eu não acabe penando em um cursinho. Um ano é muito tempo para se jogar fora e esse um ano, já tenho certeza, poderei aproveitar para me preparar para ser uma jornalista de fato. No entanto, não vou mentir: estou visando acertar patos mais vistosos. Principalmente quando me refiro à Universidade Federal do Piauí, a UFPI. Lembram do PSIU? Quem já acompanha meus escritos há bastante tempo sabe que, em 2007, fiz a 1º etapa e em 2008, a 2º. Se eu acertar o patinho master, a 3º etapa do PSIU, estarei feita!
Além do PSIU, posso alcançar o mesmo objetivo acertando o patinho chamado ENEM, é bom ter essas duas possibilidades à disposição. Agora só espero que tudo dê certo. A partir de amanhã (16/11), as turmas de 3º ano deixarão de existir por duas semanas, dando lugar às turmas de Exatas, Saúde e Humanas. Eu ficarei nesta última. Isso é para prepararmos nossas armas para acertar em cheio o vestibular da UESPI, que eu também tentarei.
O engraçado é que, por conta dessas mudanças, na última sexta a turma se comportou como se aquele fosse o último dia de aula. A choradeira foi geral. E eu me arrependi amargamente de não ter trazido a filmadora para o colégio nesse dia. Pois, sim, pretendo levar uma filmadora para lá, e guardar em vídeo, que fica mais completo, as sólidas lembranças dos bons amigos que arranjei naquele lugar. O lugar que é, praticamente, a minha segunda casa.
Sim, é isso mesmo. Mas, calma, que não é para sempre, vocês ainda lerão muita postagem feita por mim. Vai ser só por hoje.
O fato é que, nesta noite, estarei como atiradora, tentando acertar um patinho que me dará o direito de subir mais um degrau. O patinho é a faculdade CEUT. Entenderam?
No próximo domingo, voltarei com um post decente. Sobre o colégio. Aliás, todas as postagens feitas até o dia em que eu fizer meu último vestibular serão sobre o colégio. É o jeito, estou me despedindo de algo com o qual convivi durante uma vida inteira. É capaz até de vocês enjoarem disso, sério.
Até!
Há uns meses, não sei quantos ao certo, vi no jornal O Dia a notícia de que a Disney iria lançar mais um filme sobre a Rapunzel, a garota de longas tranças. Era a princesa que faltava. Por coincidência, o nome do príncipe encantado da vez era o mesmo de uma pessoinha que eu conhecia. Melhor dizendo, de um bichaninho que eu conhecia...
Flynn pode já estar no andar de cima, mas nas minhas histórias ele está mais vivo do que nunca. E o manterei assim. Afinal, na ficção nada é impossível!
O serviçal saiu em disparada do salão do palácio, onde há pouco recebera uma ordem do rei Gato, que pedira para chamar-lhe o filho. Príncipe Flynn Frisól aniversariara no dia anterior, com direito a festa e tudo, e agora era preciso discutir um dever que o jovem bichano acabara ganhando junto com a nova idade. Voltou em minutos, com um belo felino branco ao lado. O príncipe.
- Sim, meu pai, o que foi? - Flynn correu em direção ao trono, deixando o serviçal para trás - Algum problema?
- Não se preucupe, está tudo correndo muito bem. Até o clima está bom hoje! - o rei Gato desceu da cadeira e aproximou-se do filho - Na verdade, Flynn, chamei-o para falarmos de seu futuro.
Flynn rodou os olhos. Já tinha ideia de qual seria o assunto.
- Como você bem sabe, e melhor do que ninguém, você acabou de se tornar um gato adulto. - as pontinhas dos dedos das patas dianteiras do rei se tocavam e se separavam várias vezes por minuto, tiquetaqueando - 2 anos de idade! Isso significa que já está na hora de iniciar a sua busca.
- A sua busca... - Flynn apenas repetiu.
- A busca por sua amada! Seu cavalo já foi preparado, pode começar a partir de hoje.
- Está bem, mas por que tenho que fazer isso? Por que tenho que sair do castelo? Aqui é cercado de casas por todos os lados, afinal, estamos em uma cidade. E nós passeamos todos os dias. Em qualquer dia desses, eu poderia esbarrar em uma gata e ela poderia olhar para mim, eu para ela, nós nos apaixonarmos e depois de algum tempo nos casarmos e darmos quantos netos você quiser... Por que tenho que ir embora?
- Flynn, meu filho... - o rei Gato suspirou, pondo em seguida a pata no ombro de Flynn - Quando eu ainda era príncipe, também não... achei muito boa a ideia... Mas se não tivesse sido assim, eu nunca teria encontrado sua mãe. Flynn, todos os príncipes quando chegam na sua idade fazem isso, eles saem pelo mundo, pecorrem lugares desconhecidos, conhecem coisas novas e, é claro, sempre chegam no castelo onde espera o amor de suas vidas. Então eles poem a amada no cavalo e voltam para casa. E, convenhamos, não é lindo?
- Realmente é, mas será que eu não poderia ficar aqui sentado, esperando com as minhas latinhas de comida para gato ou aj...
- Você não é o Garfield para ficar sentado com latinha de comida. - rei Gato ficou sério, e Flynn começou a achar que iniciou a frase do jeito errado - Você vai pegar suas coisas, montar naquele cavalo e ganhar o mundo. Se não é assim, você aprendeu esgrima e defesa pessoal, além de um monte de outras coisas, para quê então, meu filho? - e, suavizando a voz, retomando o sorriso - Flynn, vai ser a melhor coisa que terá feito em sua vida. Ande, que ela te espera!
A conversa ainda se arrastou por um bom tempo, mas, no fim das contas, era inútil. Antes que o dia acabasse, príncipe Flynn já estava na estrada, num ponto de onde podia ver a cidade ao longe. Conseguira se despedir bem dos seus, sem nenhuma pressa. Em troca, só recebeu felicitações pela aventura que iria empreender. Ao contrário deles, que estavam dominados por imensurável alegria, Flynn só conseguia ficar de cara amarrada, de vez em quando substituída por algo com um quê de inexpressivo. Ao menos, conseguira disfarçar isso bem aos amigos quando foi embora. Devem estar imaginando o quanto que o príncipe está empolgado... Ah, danem-se todos!
Flynn pensou no porquê de serem os príncipes a sair atrás de suas princesas e não o contrário. Sim, embora ninguém diga isso explicitamente, a "amada" que tanto falam obrigatoriamente tem que ser uma princesa. Vai que ele arranja uma simples faxineira...É o fim! Voltando à questão anterior, por que mesmo não poderia ser o contrário? Seria até mais cômodo. Ora, se nos bailes as damas vêm naturalmente para perto do príncipe, porque não poderia ser assim também quanto à viagem? Se os seres do sexo feminino não pudessem aguentar atravessar longas distâncias, as inúmeras famílias de imigrantes que chegam à cidade nunca poderiam trazer a matriarca e as filhas meninas. E eles sempre trazem. Aos montes.
Com o decorrer da viagem, Flynn começou a pensar menos e olhar mais o que aparecia pelo caminho. Nessa parte, o rei Gato tinha razão: o mundo não se cansaria de mostrar-lhe coisas novas e interessantes. De fato, o príncipe viu muita coisa, se hospedou em casas onde vivia gente muito afável e simpática e o cavalo teve de carregar também um saco cheio de bugigangas que Flynn comprava por onde passava. Mas nem tudo era bonito, ocorreu de Flynn ter que atravessar lugares de difícil (e arriscado) acesso e ter que lutar com ladrões.
Apesar dos eventuais contratempos, Flynn até começou a desejar que o grande amor da vida dele demorasse para aparecer porque a aventura estava sendo bastante proveitosa. Mas não era culpa dela, um dia ele teria que voltar. Acabaria o dinheiro, os mantimentos, a saudade estaria grande demais e então ele não teria mais condições de ir a lugar algum. Nesse momento, Flynn caía em si: Tinha que encontrá-la o quanto antes, para evitar ficar desamparado, solitário e sem poder regressar à casa. Nessa parte, um neurônio sombrio desenhava a figura de jornais de letras garrafais: "Príncipe encontra-se desaparecido há um ano". "...há três anos". "...há dez anos".
Flynn não se desesperava, apenas ficava triste. "...há vinte anos". "...há cinquenta anos". Naquela tristeza depressiva que o fazia ficar apenas pendendo no dorso de seu cavalo preto. É, o cavalo do Flynn era preto. Se fosse branco, como o da maioria dos príncipes, iria parecer que ele e o bichano eram uma coisa só.
Finalmente, o príncipe Flynn Frisól avistou um castelo, cujos tijolos pareciam ser de pedra bruta, que era cercado por um fosso de águas muito limpas e brilhantes. Não havia muro. Flynn não se atraveria a atravessar sozinho aquele fosso, gatos detestam água. Não se atreveria a não ser que tivesse uma canoa alí perto, mas não tinha. Esperou a noite chegar (seria mais fácil entrar sem ser visto) e decidiu encorajar o cavalo a mergulhar naquelas águas, o gato em cima. Ainda bem que o cavalo de Flynn sabia nadar. E melhor que fosse mesmo assim, nada mais adequado para príncipes aventureiros.
Não foi fácil. Num dado momento, Flynn teve que se equilibrar na cabeça do cavalo pois este não estava mais conseguindo manter o dorso acima do nível da água. Ainda assim, molhou o rabo. Mas eles conseguiram chegar no outro lado. A partir daí, seria só procurar a torre mais alta. Ora, elas sempre estão nas torres mais altas, que falta de criatividade! Por sorte, a torre em questão ficava na periferia da construção, e não no meio.
- Olá!!! - Flynn gritou para aquela janelinha que estava lá no alto - Olá!!!... OLÁ!!! SERÁ QUE ESTÁ TODO MUNDO DORMINDO AÍ?... Olá!!!
De repente, uma cabeçinha surgiu de lá. Cabeçinha de moçinha. Humana.
- Quem tá aí? - a voz parecia estar na estranha fronteira entre o grito e o cuidado para ninguém ouvir. Flynn ouviu.
- Flynn Frisól, o príncipe mais gato do mundo! - se isso fosse um trecho do programa CQC, Flynn iria ganhar um nariz de palhaço. A garota riu e respondeu algo tipo um "Estou vendo" - E você quem é?
- Rapuzel.
Os olhos de Flynn saltaram. Como assim, ela era a...? Flynn já tinha ouvido várias vezes a história dela, que ela era uma jovem princesa aprisionada por uma bruxa num quarto sem porta, na torre mais alta do castelo da tal feiticeira. Mas... era ou não era aquilo só mais uma historinha para dormir?
- Rapunzel mesmo?
- Rapunzel.
- Ei! Então me prove de que é mesmo Rapuzel. Jogue suas tranças!
De onde estava, Flynn conseguiu perceber que a garota possuia uma pequena trança no lado esquerdo. Não é suficiente, Rapunzel tinha tranças quilométricas, na cabeça do príncipe amadurecia a ideia de que aquela era só alguém dizendo ser Rapuzel ou, no máximo, uma homônima. Porém, qual não foi a surpresa de Flynn quando a moça abaixou-se, sumindo por um tempo das vistas do gato, e em seguida jogou uma trança grossa, enorme. A ponta chegou a tocar o chão.
- Agora você pode subir! - gritou a Rapunzel.
A moça, olhando para baixo, só conseguiu ver um gato branco de queixo caído que se recompôs pouco tempo depois, mas que mesmo assim continuou calado. Demorou para o par de olhos cor de âmbar que ele possuia voltar a fitá-la, interrogativos.
- Você é a Rapunzel, é fato. Então, a bruxa te mantém aí... Bom, se é assim, não sou eu que terei que subir mas, para se salvar, você é que teria que descer.
Rapunzel abaixou a cabeça. Não podia negar que Flynn tinha razão.
- Espere! Há outra janela aí?
- Ahn? - Rapunzel olhou para o lado e depois de volta para Flynn - Há, há sim!
- Então... - Flynn foi para outro lado da torre - Então, pule!
Debaixo da outra janela, havia uma armação de lona, sabe-se lá para quê. O que Flynn sabia é que aquela armação poderia sair-se bem como uma cama elástica. Rapuzel resistiu por um tempo, não parecia muito agradável a ideia de pular da torre. Flynn estão usou o argumento de que a bruxa sabia desse medo dela, a princesa, e que por isso achou que sua refém jamais escaparia. Mas agora era a hora de provar que a malvada estava errada.
Não bastou, já que Flynn teve que gastar um pouco mais de saliva até Rapunzel, finalmente, pular. A lona cumpriu bem o seu trabalho, pareceu que não iria aguentar o repentino peso da princesa, mas suportou perfeitamente. Da lona, Rapunzel escorregou até o lombo do cavalo de Flynn, que já estava preparado para recebê-la, conforme instruções do dono dadas ao companheiro. Agora, voltar!
Entranhamente, atravessar o fosso pareceu mais fácil na volta do que na ida. Será devido ao prazer pelo dever cumprido? Ou porque na primeira vez é mais complicado mesmo? Passado o obstáculo, o cavalo correu alguns quilômetros, o suficiente para que o castelo da bruxa ficasse do tamanho de uma caixa de sapatos. Então, se debruçou sobre a grama, e o príncipe Flynn Frisól se debruçou também, e a princesa Rapuzel se sentou, a saia molhada.
- Sabe, não sei como ainda não te agradeci... - ela parecia meio sem jeito - Muito obrigado!
Flynn olhou para ela, para aqueles olhos brilhantes, para aquele sorriso celestial, para aquele rosto delicado, para aqueles cabelos bem pretos, e sentiu... coisa nenhuma. Nada. Nem mesmo quando ela começou a coçar a cabeçinha dele, gesto bem típico dos humanos para com os gatos. Definitivamente, Flynn não se apaixonara. Mas isso esteve longe de desapontá-lo.
Rapunzel pegou um punhal que Flynn levava consigo e decidiu cortar a trança maior. Ela só atrapalharia agora que a princesinha estava livre. Flynn deixou-a cortar, mas deixou claro que mesmo assim levaria a trança, para provar que a moça que trazia era aquela pessoa que tantos ouviram falar. Feito um vitorioso, Flynn pensou em carregar a garota no colo até o cavalo, mas nosso príncipe era estupidamente pequeno. Foi ela que o carregou, e em seguida montou no cavalo. Assim, eles agora partiam para a cidade onde o rei Gato os esperava, e onde Flynn poderia encontrar, ao caminhar pelas ruas, quem sabe, aquela que ele procurou e não encontrou durante a viagem.
Imagino que poucos tenham essa sorte, mas quando eu acordei pela primeira vez, eu vi uma linda moça sorrindo para mim... que me passou para outra moça, que me deixou numa esteira rolante. Eu era mais um copinho de iogurte que tinha acabado de ser bem vindo ao mundo. O momento em que comecei a existir! É uma pena que as pessoas não podem ter retida na memória tão importante lembrança, mas eu não sou uma pessoa, sou um copinho de iogurte, comigo é diferente.
À minha frente e atrás de mim, na esteira, haviam vários copinhos iguais a mim, que varriam com o olhar tudo que a vista pudesse alcançar. Eu fazia o mesmo, obviamente. Todos nós procurávamos entender o que estava acontecendo e o que era tudo aquilo que nos cercava. Ainda bem (ainda bem para o pessoal da fábrica) que nenhum de nós tinha pernas, pois se fosse assim debandaríamos dalí e acabaríamos causando confusão de tanto que o nosso nível de curiosidade estava alto.
Numa hora, senti que fiquei mais pesado. Olhei para trás e vi que um tubo despejava dentro dos copinhos um líquido branco, ou será que era bege-claro? Depois, fecharam minha abertura com alguma coisa que parecia ser de alumínio e, passado um metro, parece que carimbaram alguma coisa nessa minha tampa que eu acabara de ganhar. Foi apenas então que uma outra mão me retirou da esteira, e me colocou em uma caixa. Agora eu me via cercado de "irmãozinhos" por todos os lados.
Não sei ao certo quanto tempo eu fiquei naquele ambiente apertado e escuro. Escuro sim, porque depois fecharam a caixa. Senti que a mesma foi passando de mão e mão. Não entendi aquilo, para onde estavam me levando? Se estanhei isso, estranhei mais ainda quando pararam de carregar minha caixa e ouvi barulho de portas se fechando. Mais alguns ruídos depois, eu conheci alguém que iria ser um companheiro extremamente fiel para mim: o frio.
As pessoas se sentiriam incomodadas em uma temperatura daquelas, mas tenho que dizer que me senti bastante confortavel. E, pelas caras dos copinhos de iogurte que andavam comigo, parece que eles estavam se sentindo muito bem também. Deve ser algo inerente à nossa classe. Copos de iogurte são criados com o objetivo de proteger o conteúdo que trazem dentro, e o frio é alguém que mandam para nos ajudar nessa missão. Me assustei com o ruído das portas. Elas estavam se abrindo.
Voltaram a carregar a caixa, mas por pouco tempo. Parece que a colocaram em cima de alguma coisa que se deslocava macio pelo espaço (um carrinho de mão?).
Pensando melhor sobre o tempo, acho que passei vários dias dentro da caixa. Tanto que quase ceguei com a intensidade da luz que invadiu a caixa quando uma pessoa descerrou as duas folhas de papelão. E nem era uma luz tão forte assim, eu é que havia passado tempo demais no escuro. Mas o lugar onde eu estava tinha várias lâmpadas no teto, não posso negar. A mesma pessoa que abriu a caixa pegou um a um dos meus coleguinhas e os colocou em um canto que eu não estava vendo onde era. Só quando chegou a minha vez é que vi, admirado, que era uma prateleira onde haviam não apenas copinhos de iogurte iguais a mim, mas também outros que eram só parecidos, e mais outros que nem copos eram.
Já ajeitado em meu lugar, pude ver também outras prateleiras onde estavam outros recipientes que chegavam a ser totalmente diferentes de mim. Uns até sequer eram recipientes de alguma coisa: eram o próprio produto. E descobri que aquilo que eu carregava se chamava produto e que as pessoas viviam a vistoriar todas aquelas prateleiras atrás dessas coisas que eram produto, como o iogurte. Por isso, eu tinha o sagrado dever de proteger o que eu tinha dentro de mim, custe o que custasse.
Passei alguns dias na prateleira, esperando alguém me pegar dalí. Porém, não me incomodei ao ver os meus companheiros de fabricação serem escolhidos pelas pessoas e eu não. Ora, estava feliz, junto dos meus e meu grande amigo, o frio, também estava comigo. Por que eu desejaria sair dalí assim tão cedo? Um dia eu teria de sair, é meu destino, mas tudo bem enquanto ele não chegasse. Então, aconteceu de, numa tarde, uma mulher me apanhou, me olhou de cima a baixo e me colocou no carrinho dela. Assim, eu me despedia da prateleira que me recebera tão bem, e que se afastava, afastava, afastava, afastava...
Naquilo que chamam de caixa, mas que nem se parece com a caixa onde fiquei anteriormente, encontrei uma coisa que me pareceu bastante familiar: uma esteira! Mas ela era mais curta do que as que eu conhecia. O moço do caixa me pegou e me passou na frente de uma máquina que fazia um barulhinho engraçado, e depois me jogou para o outro lado. Lá, outro moço me pegou também e me colocou dentro de uma sacola, junto de um pote de margarina, um outro copo de iogurte e um pacote de salsichas. A sacola era translúcida o suficiente para que eu visse que estava sendo levado para o compartimento traseiro de uma coisa grande e bem esquisita (um carro popular?). Compartimento bem escuro também.
Pensei que passaria dias alí dentro tal qual eu havia passado dentro de um caminhão que me trouxera de Osasco, São Paulo - fiquei sabendo posteriomente desses detalhes. Mas a viagem desta vez foi bem mais rápida. Porém, o tempo foi o suficiente para que eu sentisse saudade de quem deixei lá na prateleira, principalmente do frio. Me deprimia cogitar que nunca mais o veria mas... eis que eu o encontro novamente! A mulher que me comprou abriu uma, tipo, enorme caixa branca e me colocou lá dentro, onde o frio me esperava de braços abertos. Eu não tinha a luminosidade comigo, como antes, mas o frio nunca me deixou só.
Por várias vezes, achei que ficaria alí para sempre, feliz, mas de lá - o impensável - me tiraram também. Uma pessoa me colocou sobre uma mesa e arrancou minha tampa, e com um objeto longo com uma extremidade meio arredondada (uma colher?), ela foi consumindo-me o conteúdo. Lentamente, fui ficando leve, achei boa essa sensação de estar voltando ao peso de antes. Mas comecei a me preucupar quando me dei conta de que a mesma pessoa começou a me levar para algum lugar, e que esse lugar não era a geladeira...
Frio...
Minha missão era a de proteger 300g de iogurte sabor mel e granola, mas eu não sabia que iogurte era um produto cuja função era de levar energia às pessoas, função que é também a da carne, a do arroz e a do pão. Mas, mesmo que eu soubesse, nada poderia fazer. O iogurte acabou-se, fez o que havia de ser feito. Paralelamente, a minha missão também acabava alí. E enquanto meu conteúdo transformava-se em mil coisas dentro do organismo humano, eu acabei por me tornar um imprestável, que só servia para ocupar espaço. Descartaram-me.
Eu, sem minha tampa e desfigurado por ter sido um pouco amassado, fui parar em um lugar nauseabundo, infecto e quente. É, nem o frio estaria ao meu lado, ah, se eu soubesse... Ao mesmo tempo, uns monstros vinham me atazanar. Uns eram bem grandes, pretos e ficavam fazendo círculos no céu antes de me atacarem. Outros, também pretos, mas menores e nem por isso menos pestilentos, ficavam no chão mesmo. E tudo indicava que, ali sim, seria minha morada definitiva, meu inferno. Entre fedores, incômodos e pisadas de pessoas que sei lá porquê passavam por alí, desejei nunca ter existido, se era para tudo acabar assim. Ou, ao menos, que eu tivesse sido... o iogurte.
Fiquei tão absorvido pela minha própria dor que mal notei que uma pessoa me apanhou dalí. Quando me dei conta, estava dentro de um carrinho onde estavam outros objetos e plástico. E de metal, separados estes por uma divisória de papelão. Fiquei abobado, não acabou ainda? A pessoa e seu carrinho, e eu dentro, atravessaram várias montanhas de lixo amontoado até que saímos do aterro onde me jogaram. Fui levado para uma casinha próxima, onde outra pessoa me lavou e me colocou em uma caixa limpa. De fato, lá tudo exalava limpeza.
E vi na parede um símbolo estranho, três setas apontando umas para as outras. Ao lado, onde findava a parede, dois homens conversavam, e parecia ser a respeito do meu destino. Ah, isso eu precisava ouvir, senti minha vida dependia disso. A vontade foi tanta que, pela primeira vez, senti que me movi para outro canto por conta própria, mesmo que a distância fosse pouca. E conseguir ouvir. E entendi tudo.
Esta foi toda a minha história, pelo menos toda como sendo eu um copinho de iogurte, pois antes eu era plástico bruto, e mais antes ainda fui petróleo, que adomercia durante milhões de anos debaixo da terra. E antes de ser petróleo, eu fui um ser vivo como você, que respira, se alimenta e se locomove. Nunca imaginei que fui tantas coisas, mas agora eu sei. E queria ter descoberto isso antes.
Agora estou na frente de uma máquina cuja função é destruir o copinho de iogurte. Serei colocado lá dentro e rapidamente me pulverizarão, reduzindo-me a infinitos pequenos pedaços. Esses pedaços serão levados para um lugar onde serão reunidos e moldados, formando um novo objeto. O copinho de iogurte deixará de existir, e acordará sob outra forma, com uma nova missão, para uma nova odisséia. Na verdade, não existe fim, tudo são ciclos que, num determinado ponto, é preciso dormir para que despertemos no dia seguinte abençoados pela luz de um novo dia.
E chegou a minha hora. A hora de um reinício. A hora da esperança.
A caçadora trazia sua arma em uma das mãos e uma vasilha na outra, olhando em seguida para cima a fim de encontrar a presa. O azul do céu era filtrado pelas folhinhas arredondadas da árvore que sombreava o lugar. E eis que, pendendo em um galho, lá está, vermelha, grande, vistosa.
A caçadora levanta a comprida arma de madeira, e direciona a ponta de plástico para a presa. Ponta que não é ponta, não é para ferir, é para encurralar a presa que se debate insistentemente, enquanto a arma é balançada para forçar a vítima a largar seu porto seguro. E largou, cansada, cedendo à prática e à persistência da caçadora.
Finalizada a captura, a caçadora despejou seu mais novo triunfo na vasilha. E então acomodou sobre o ombro a vara de madeira com garrafa PET cortada ao meio na ponta, continuando a procura por outros cajus tão bonitos quanto aquele.
Esta foi, para mim, a semana dos presentes. Dei e recebi presentes. E nem era aniversário de ninguém, a não ser o do Grover da Vila Sésamo, mas esse aniversariante só recebeu carinho por minha parte. No momento, estou curtindo a música que veio junto com um dos presentes que ganhei... "Hikisaita yami ga hoe furueru teito ni/ Ai no uta takaraka ni..."... É que está em japonês, entendem? É a música da abertura de um anime que andei assistindo nestes últimos dias.
No que se trata de desenhos japoneses, não vivo apenas em "Naruto", que se dependesse de mim se chamaria "Ino". Geralmente, costumo dar um pouco de atenção à outros animes que caem à minha frente. Foram várias as vezes em que eu ia ao YouTube olhar outros vídeos com outros personagens de cabelo, digamos, estranho e olhos grandes, e depois, quem sabe, olhar aquele outro vídeo que já vi não sei quantas mil vezes e que aparece essa minha adorável Ino Yamanaka... ou fazer qualquer outra coisa. Mas são apenas olhadelas, no máximo acabam em uma visita à Wikipédia para descobrir mais sobre o enredo, só por curiosidade.
Para que eu pegue um anime e depois chegue até a procurar seus episódios, nesse caso teria de ser um anime que me conquistasse. Foi o que aconteceu.
Numa visita à locadora que meu irmão costuma frequentar, fiquei também olhando os catálogos e encontrei "Sakura Taisen", mais conhecido nos países ocidentais como "Sakura Wars". Corri os olhos pela capa do filme, li aquele texto que sempre há na parte de trás e... mudei de página (Cada página do catálogo correspondia à capa de um filme). Eu estava interessada mesmo era em uns filmes com episódios de "Naruto" em que decerto a Ino poderá aparecer, mas sempre alugam muito esses filmes, nunca tem. Não há problema, prefiro vê-los no Natal. Seriam um ótimo presente, nem que fosse por uns dias apenas.
Este foi o dia em fiquei sabendo que "Sakura Wars" existia, somente. Mais tarde, eu estava como agora, diante de um computador, lendo algumas coisas sobre política e outros assuntos que me chamasse a atenção. Só que chegou o tédio, que havia deixado o "vontade de desligar o computador" em casa. E agora? Acabei me lembrando daquele filminho que encontrei naquele catálogo e acionei o Google para procurar por "Sakura Wars". Me detive nos vídeozinhos sobre o assunto que ficavam no final da página. Cliquei em um deles.
Se sentindo sozinho, o tédio me deixou e voltei a viajar por meus assuntos favoritos, e o vídeo deixado carregando. Só quando que minha visita à internet estava em hora de acabar é que fui vê-lo. E gostei. Gostei demais!
"Sakura Wars" possui uma história diferente, descobri noutra ida ao computador. É uma anime de época, se passa no iniciozinho dos anos 1920, mas uns anos 1920 com tecnologias avançadas para aqueles tempos, tudo graças ao aprimoramento do uso da energia à vapor. Por isso, podemos pensar em armadoras robóticas, verdadeiras máquinas de guerra, como as que fabricaram as indústrias Kanzaki. Essas industrias, no anime, são as líderes mundiais de fabricação de máquinas à vapor.
A capital do Japão, Tóquio, estava sendo ameaçada por forças espirituais muito, como diria a proprietária do Strawberry Kiss, DUMAL. Foi então que as indústrias Kanzaki resolveram ajudar, desenvolvendo as tais armaduras robóticas, que só poderiam ser controladas por pessoas com alto poder espiritual. Pessoas, acreditava-se, que só poderiam ser do sexo feminino.
Encontrar essas pessoas não deve ter sido fácil, tiveram que procurar pelo mundo inteiro. Tanto que o Esquadrão Imperial da Flor, responsável por lidar com as armaduras espirituais, é formado por Sumire Kanzaki, japonesa (e filha do dono das indústrias Kanzaki); Íris Chateaubriand, francesa; Maria Tachibana, ucraniana; Li Kohran, chinesa; Kanna Kirishima, japonesa também; Orihime Soletta, italiana descendente de japoneses; Leni, alemã; Lachette Altair, norte-americana.
E, é claro, temos também Sakura Shinguji, a protagonista e personagem-título do anime. É uma típica japonesinha, anda quase sempre com um lindo quimono e tem cabelos azuis-quase-pretos e olhos castanhos. Típica mesmo. Menina do inteiror, vinda de Sendai, chega à Tóquio por causa do chamado do general Ikki Yoneda para que ela ingresse no Esquadrão da Flor. Na hora das lutas, ela usa um tachi, uma espada de tamanho médio.
Durante uma semana, as minhas visitas ao computador tiveram presença marcante de vídeos e imagens de "Sakura Wars". E fiquei com vontade de alugar aquele filme que encontrei no catálogo da locadora. A oportunidade veio justo em 14 de outubro, dia do aniversário do Grover. Eu até tinha levado o de pelúcia para o colégio de pretendia ver vídeos do personagem mais tarde. Nesse dia, meu irmão foi alugar filmes pela enésima vezes, os mesmos títulos que ele alugara antes há um tempo. Aproveitei, peguei a fichazinha que estava junto da capa de "Sakura Wars" no catálogo e entreguei-o à balconista. Saí de lá com o DVD nas mãos.
Pensei que seria o filme da série. Sim, "Sakura Wars" rendeu um filme. O DVD alugado apenas continha os dois primeiros episódios do anime. Nada mal, pelo menos iria ver como seria a voz da Sakura, por exemplo, e assistir novamente à algo em que o nome em questão não é pronunciado como se houvesse um acento agudo no primeiro "a" (como ocorre em "Naruto"). E ver como é que a história começou.
Para minha surpresa, não apareceu toda a equipe do Esquadrão da Flor. De todas, só conheci três, além da própria Sakura: Sumire tem jeito de senhorinha riquinha, e um pouco arrogante. Foi a que mais detestou a Sakura quando esta chegou (a protagonista não se deu bem, a princípio, com as companheiras de equipe), até tapa na cara da outra a Sumire deu! Íris é uma daquelas pessoas que dão vontade de abraçar, usa tanto tecido no vestidinho que mais parece uma bonequinha. Fala muito com seu ursinho de pelúcia, Jean Paul.
E Maria, a líder. É muito quieta e fechada, fala só o necessário. Acho até que há alguma coisa interessante no passado dela: Maria apareceu olhando o pingente do colar que usa no pescoço (o pingente não é mostrado a quem assiste) e depois ela o esconde na blusa quando ouve batidas na porta. Depois, em uma conversa com Sakura, aparece um flashback em que Maria aparece penando no rigoroso inverno russo, sendo que, em seguida, ela fala que não lutaria ao lado de uma pessoa confusa porque isso pode causar a morte das colegas de equipe. Aí tem coisa. Maria matou alguém? Peguntei à Wikipédia, mas só pude saber que a personagem participou da Revolução Russa de 1917. Ainda estou curiosa.
Passei três dias com esse filme direto no meu aparelho de DVD. E, quando chegou a hora da despedida, demorei a colocar o disco de volta na caixinha. Eu estava assistindo, oras! Ainda bem que sempre existe a chance de alugar de novo, o que não pretendo no momento.
Na verdade, eu queria mesmo era achar os outros episódios de "Sakura Wars", e para isso existe a internet. Não deu certo na primeira tentativa, só encontrei o filme que foi lançado a partir no anime. Mas valeu: a legenda era em português! Na segunda tentativa, e mais por sorte, consegui assisitir ao 3º episódio inteiro e um pedaçinho do 4º. Episódios dublados em espanhol, que ao menos é bem melhor do que se estivessem em japonês ou mesmo em inglês.
Foi só nesses episódios em que vi finalmente Sakura como sendo uma legítima integrante do Esquadrão da Flor. No DVD, apenas aparecia ela chegando em Tóquio, causando confusão - desajeitada que só ela - e tentando se acertar com o pessoal do Esquadrão. Agora, Sakura já está controlando sua armadura robótica contra os espíritos do mal e, além disso, tendo aulas de técnica vocal e exercícios físicos com a Maria para poder não fazer feio como atriz. Atriz? É que, essa confusão com as malévolas forças espirituais pode assustar os cidadãos de Tóquio, as integrantes do Esquadrão da Flor trabalham como atrizes em um teatro que também funciona como quartel-general do Esquadrão da Flor.
Esse foi um dos meus presentes. O maior deles. Acho que agora vou voltar a ouvir um pouco mais da música de abertura de "Sakura Wars". Para quem se interessar também, o vídeo é este logo abaixo. "Hikisaita yami ga hoe furueru teito ni..."...
Mamãe e eu entramos no supermercado HiperBompreço, do Teresina Shopping. Estava um verdadeiro formigueiro de gente naquele lugar, eram tantos e para todos os lados que pareciam uma coisa só, feito água do mar ondulando-se. E, bem na entrada, uma coluna enorme, repleta de brinquedos, emergia no meio do mar de pessoas. Atrás dela ainda teriam vários metros em linha reta com várias ofertas dos mais variados brinquedos e seus "deslumbrantes" preços. É que seria o Dia das Crianças depois de amanhã.
Nós não estávamos atrás de brinquedo. Eu tenho 17 anos e meu irmão tem 14, por acaso ainda somos crianças? A missão era arranjar algumas coisas que seriam necessárias em uma reunião de amigos, que faríamos no dia seguinte. Mas uma outra coisa pedia urgência: Eu acabava de voltar de uma prova no colégio e, além disso, fiquei mais de uma hora esperando meus pais me buscarem porque não atendiam nem os celulares deles nem o telefone de casa. Definitivamente, eu precisava de um lanchinho.
Já estava decidido que faríamos uma pausa para comer na lanchonete do supermercado. Sim, cheguei a namorar o McDonald's (e os fofos bichaninhos de 10cm que estão vindo no McLanche Feliz), mas aquelas filas ficam terríveis não apenas nas noites de sábado, mas nas de todos os dias da semana. Não sei porque as pessoas preferem ir ao shopping à noite...
Mas havia um problema. Mamãe disse que tínhamos que pôr alguma coisa no carrinho, senão, mesmo que ele estivesse bem do nosso lado, alguém poderia aparecer, pensar que ninguém está usando e levá-lo embora. Nem deixei passar um ou dois segundos, apenas estendi o braço para o lado, apanhei um enorme cachorro preto de pelúcia e o rebolei no carrinho. Está resolvido!
Antes de seguir em frente, dei uma olhada no placa que dizia o preço de toda aquela fauna de pelúcia que estava no "cestão" - não posso chamar aquilo de prateleira - de onde tirei o cachorro. "15x de R$ 3,99", o "15x" bem pequeninho e o "R$ 3,99" bem grandão. Truque para laçar o inocente consumidor, se bem que é um tanto óbvio que um bichinho daqueles, com mais de 50cm de altura, não poderia sair por um preço mais baixo. Ainda coloquei uma bola de futebol no carrinho, também para preencher espaço.
Foi à custo que encontramos uma mesinha vazia, a do cantinho. Meu lanche foi basicamente a mesma coisa que é lá no meu colégio: um suco Kapo e um salgado. Melhor dizendo, seria, pois pedi também aquele docinho conhecido como bem-casado. Gosto de misturar o gosto do doce com o do sal, é interessante para mim. Mamãe também pediu um salgado. E uma garrafinha de água.
Mamãe comentou durante o momento que tínhamos escolhido os brinquedos mais feios para preencher o carrinho. Percebi que ela se referiu especialmente a cachorro de pelúcia. Para falar a verdade, não o achei tão feio assim... Ele não era recoberto daquele tecido que imita pelo, mas conseguia ser fofo mesmo assim. E possuía uns olhos bem pidões, pareciam até aqueles olhos de personagem de desenho japonês. Reparei noutra coisa, a bola... Combinavam! Tanto o cachorro quanto a bola tinham preto, bege e branco dentre suas cores, é como se eu tivesse feito uma escolha inconsciente, ou algo assim.
Terminamos, pegamos o carrinho e fomos passando de corredor em corredor atrás das coisas que queríamos. Enfim, chegou a hora de eu abandonar aqueles brinquedos "enchedores de linguiça" em algum lugar. Deixei-os em uma prateleira de produtos outros (leia-se: que não eram brinquedos) e fui ajudar mamãe com os ítens da lista. Reparei que, enquanto analisávamos os tapetes para porta de banheiro, aquele cachorrinho preto de pelúcia e olhos pidões não estava ficando sozinho.
Primeiro, chegou uma família de umas 3 pessoas. Eles se detiveram na prateleira. A menina mais nova pegou o cachorro, o abraçou por uns instantes e colocou-o de volta onde o achou. A menina mais velha, talvez uma adolescente da minha idade, também fez a mesma coisa e ainda acrescentou "Vamos levar tudo isso aqui!", referindo-se aos produtos da prateleira, incluindo o cachorro. No entanto, também o largou.
Uns minutos mais tarde, apareceu um garotinho moreno de uns 6 ou 7 anos, que também abraçou o cachorro de pelúcia. E foi um abraço ainda mais forte e presente do que os dois primeiros. Da categoria daqueles abraços em que você aperta, aperta e ainda balança um pouco para os lados. Mas o garoto também não levou o cachorro.
Admito, acabei mesmo ficando com dó do cachorrinho. Me afastei da mamãe e peguei-o de volta, só que me dirigi em seguida para o corredor principal do supermercado. A intenção era deixá-lo no "cestão" de onde o tirei. É que parecia um tanto injusto deixar um produto no meio de outros que não lhe são aparentados, isso diminui substancialmente as chances de alguém pegar esse mesmo produto e comprá-lo. Devolver o cachorro ao seu canto, onde estava seu preço, seria dar-lhe de volta a oportunidade de fazer uma pessoa feliz.
Ainda estava o mesmo amontoado de gente naquele lugar. Não me senti desorientada, eu já havia andado tantas vezes naquele supermercado que seria difícil eu perder-me alí. O único risco era a mamãe sair de onde ela estava. Talvez por causa disso, fiquei com um pouco de pressa e não consegui achar o "cestão". Devo ter me esquecido a localização exata dele. Deixei então o cachorro em uma outra prateleira, repleta de variados bichos de pelúcia.
E desprenderam-se meu destino e o do cachorrinho preto de pelúcia e olhos pidões.
Para minha sorte, mamãe ainda estava entretida com alguns produtos quando eu voltei. Nem reparou que eu tinha me afastado. Até trouxe dois espelhos, eram um ítem que estava na lista, para servir de desculpa. Quanto à bola, nem me importei mais com ela depois daquele momento. Continuou onde a havia deixado até não sei quando.
Não encontramos no HiperBompreço quase nada do que estava na lista. Pegamos fila grande no caixa e depois um táxi, e fomos para o Comercial Carvalho do Riverside Shopping, onde as chances de achar o que precisávamos aumentavam exponencialmente. E aumentaram. E achamos. Ainda bem.
Não sei se o cachorro de pelúcia dormiu no supermercado ou se arranjou dono ainda naquele dia. Ou se o conseguiu nos dias que se seguiram, caso tiver ocorrido a primeira opção. Mas a pena não continua, claro que não. Fiz o que tinha de ser feito. Além do mais, pra quê eu o levaria para minha casa? Gosto demais de bichos de pelúcia, meu quarto está cheio deles, mas este não passaria de um gasto nada planejado. Está comprovado que esse tipo de gasto pode matar até.
Também, como já falei, não sou nenhuma criança.
Wow!
A julgar pela data de hoje, eu deveria estar falando sobre o ENEM. Mas o que posso falar sobre ele agora, que apareceu um sujeito disposto a vender questões da prova por 500 mil ao Estadão? Que por causa disso a prova foi adiada e que os 40 milhões de inscritos vão ter de esperar até novembro? Esculhambação... Mas o que aconteceu, aconteceu. O que era prova vai virar um mero simulado e aqui vamos tratar de outro assunto, certo?
O prato do dia é heróis. Mais acertadamente, uma heroína, ou o processo de construção desta. Uma heroína de brincadeira, frise-se. Pois bem, sigam-me os bons!
Tudo começou num sábado, o primeiro do mês e que antecedia em dois dias o 7 de setembro. Por conta disso, o colégio ficou vazio de dar dó. Se bem que a vontade dos alunos de irem para lá em um sábado nunca é grande, apesar de se poder acordar com a reprise do CQC, fazer o que bem entender após às 12h40 e de quem vem nos dar aula são os professores mais adoráveis da equipe que toma de conta do 3º ano! Porém, falando em professores, parece que naquele dia eles também não queriam aparecer.
Nosso professor de Redação iria faltar por conta de um concurso ou algo do tipo, e estava se especulando que o de História Geral também não apareceria. Mas não contamos com dois desfalques, apenas o primeiro foi efetivo. Como perder um professor já era o bastante, disparei para o outro "Professor, o senhor salvou meu dia!" assim que ele entrou na nossa sala.
Mais outra semana veio e se foi, o no sábado seguinte foi a minha vez de dar o desfalque. Estava marcado para esse dia a saga de algumas horas em São Gonçalo. Ela mesma, a cidade da acessibilidade perfeita! Fui para o colégio como em qualquer dia letivo normal, mochila nas costas, fichário debaixo do braço e carteira da frente. Desta vez, o professor de Redação apareceu, deu-nos como tarefa de classe fazer um texto sobre a importãncia do trabalho. Eu já estava lá pelo quarto parágrafo quando me chamaram para descer com minhas coisas.
Se quisesse alisar o cabelo e arrumar-se a tempo de pegar um ônibus marcado para as 2h da tarde, eu teria que deixar o colégio antes do tempo, e aconteceu no meio de uma aula. Pior: O professor nem estava na sala, tinha saído para buscar uma coisa e deixou outro professor (que é um dos nossos, de Física) tomando conta de nós. Enquanto meus colegas continuavam em suas carteiras, eu estava com uma revista Veja nas mãos e sentindo o secador ficar exageradamente quente quando se aproxima demais.
Demorei mais alguns dia para aparecer novamente no meu colégio. Nuvens muito negras haviam pousado por lá e embotavam a alma da instituição e de todos que tinham a vida, de alguma forma, ligada a ela. Eu também senti esses dias sombrios. Na segunda, era mesmo para ninguém ir. Na terça já se podia, mas mesmo assim não fui. Na quarta, foi o meu aniversário. Pisei na minha sala apenas na quinta-feira, e ainda sentia-se o poder da tempestade. Era tanto que minha vontade era de abraçar todos os meus professores. Um dia, explicarei melhor essa situação.
Aliás, sabe aquele professor que "salvou meu dia"? Voltei a vê-lo ainda na sexta. Não tinha aula, foi no fim do expediente que ele me viu na sala ao lado e me entregou um resumo sobre o assunto abordado na quarta. Impérios Bizantino, Árabe e etc (mas e o Império Romano?). Pelo visto, ele havia sentido mesmo minha falta nos dias em que faltei...
Mal o vi no dia seguinte. A aula dele havia sido na sala de vídeo e passamos 50 minutos (na verdade, menos disso, porque o filme tinha duas fases) vendo o quanto que o personagem do Mel Gibson precisava de um pente. Na outra semana, esse meu professor de História Geral desapareceu, simplesmente. Mas o motivo impunha respeito: a filhinha dele nasceu e isso é algo especial o suficiente para fazer alguém tirar uns dias de licença.
Foi dada uma aula de Gramática na aula que era para ter sido a dele, na quarta. E nas proximidades dessa aula fiquei sabendo de uma história relacionada com a minha falta por causa daquela viagem. E com meu professor também. Uma boa colega me disse que ele perguntara por mim naquele dia. Ela, por sua vez, respondeu que eu tinha viajado. E ele: "E agora, quem vai salvar meu sábado?".
Meu professor de Literatura, às vezes, após nos perguntar se faltou alguém e nós negarmos, diz que quem faltou deve ser tão insignificante a ponto de não nos lembrarmos de haver alguma ausência. Bem, piscou isso na minha memória quando minha colega terminou o que estava contando. Só que não pensei, no instante seguinte, que "Definitivamente não sou insginificante! Até os professores se lembram de mim!!!". Na verdade, me detive no fato de que o "E agora..." poderia ter uma terminação diferente. Tipo... "quem irá me defender?"
E então entrou em cena: "Eu, Juliana Colorado!" *som triunfante ao fundo* Não contavam com minha astúcia?...
Logo após escutei esse meu "grito de guerra", vindo da boca de outro colega, grande amigo meu, que estava sentado mais atrás. Parece que gostaram da história. Minha boa colega me fala, desde então, "Salva ele" quando parece que alguém está "correndo perigo" e eu estou por perto, como quando um de nossos professores de Matemática fez uma brincadeira a respeito das provas do PSIU. E encolheu a nomenclatura: Era Juliana, virou Ju ou Juju Colorado. Eu prefiro Jupolim. Mas, por favor, não quero ser fraca e destrambelhada que nem o primeiro e único Chapolim Colorado, não, pelo amor de Deus! Vai que acerto o mocinho ao invés do bandido, com a marreta biônica...
Já na segunda-feira da semana seguinte, estava eu andando pelo pátio do colégio, já esperando meus pais chegarem para me buscarem, quando minhas anteninhas de vinil (o Chapolim tem esses apetrechos, porque a Jupolim não teria?) detectaram que na em uma das salas do térreo estava dando aula o meu professor de História Geral. Yes, he is back! Estranhamente, não reconheci a letra dele no quadro quando olhei a aula pela janelinha. Será que já derreteu a minha astúcia?
Provavelmente, ele era o único dos que eu conheço que ainda não sabia dessa história de Jupolim Colorado. Logo ele, que também é personagem disso tudo. Mas isso eu poderia corrigir daqui a dois dias, na vez de ele vir para o 3º A. Só não o fiz porque a minha boa amiga o chamou num momento durante a aula e contou "o básico" da história... Aproveitam-se de minha nobreza.
O básico era tudo, tudo o que precisava ser contado. O problema é eu, que sou muito prolixa. Um monte de aulas atrás, numa quinta-feira à tarde, eu tinha contado o caso da Jupolim Colorado para o professor de Redação. Eu mais minha amiga, que contou a parte da minha ausência naquele sábado "que precisava ser salvo". Ele até me indagou se queria que me chamasse com o sobrenome Colorado, mas eu neguei alegando que cairia melhor se fosse o professor de História Geral quem me chamasse assim. Bem, apenas outro pisco da minha memória.
A mim, restou apenas puxar a assunto quando a aula acabou e só restávamos eu e o professor na sala: "Ela já te contou tudo, né?", "Sobre o quê?", "Sobre Juju Colorado.". Ele só teceu um comentário e me perguntou se eu me sentia preparada para o ENEM. Respondi afirmativamente e ele foi embora (Será que o professor de História do Brasil também tocou violão no 3ºB? Me disseram que tocou no A, vou ver...).
Fui a última a sair, como sempre. No fim das contas, Jupolim Colorado foi uma divertida brincadeira, mas na vida real não sou heroína coisa alguma. Se eu fosse, seria bem capaz de eu me teletransportar de São Gonçalo para aparecer de novo em minha sala logo após o "E, agora, quem vai salvar meu sábado?". Bom, isso não aconteceu, claro. Sou apenas uma garota de 17 anos que ainda não fez nada de muito importante para melhorar o mundo, mas que pelo menos não atrapalha a vida de ninguém. Mas até que uma marreta biônica cairia muito bem agora, para que eu pudesse dar umas boas marretadas no cara que fez vazar a prova do ENEM. Marretadas daquelas bem doídas!
Enfim, peguei minhas coisas e também saí, deixando a sala sozinha com seus fantasmas.
P.S.: Pode parecer frescura, mas achei melhor publicar esta postagem apenas se eu conseguisse o consentimento do meu professor de História Geral. Nem precisa dizer que ontem ele me devolveu o rascunho do post com o papel dobrado de outra forma e em seguida me deu sinal de positivo. E cá está Jupolim Colorado!
Sexta-feira, dia 2, foi quando se deu uma das raras vezes em que cheguei do colégio e ainda deu tempo de eu assistir ao jornal. Também não é todo dia que vejo o Lula praticamente saltando de uma cadeira e depois tendo que carregar um lencinho na mão porque não deu para segurar o choro. Dia atípico esse...
Eu tinha 15 anos - não, eram 14, pois meu aniversário foi depois - quando ocorreu o Pan lá no Rio. Vou ter 22 quando ocorrer a Copa do Mundo de 2014 e terei 24 quando, no mesmo Rio de Janeiro, irão começar as Olimpíadas! Meus caros, este nosso país está podendo!
Agora é aprender a ter maior responsabilidade para que os eventos de daqui a 5, 7 anos sejam incrivelmente maravilhosos.