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14.09.2009

Anjo

"Não desiste de chamar seu gato de felis catus, ou pelo menos catus, mesmo que na maioria das vezes ele nem olhe."
Trecho do post "Kayke Hazar e Guilhermina Dream", feito em outro blog e por outra blogueira.

Mas que pretexto! A frase acima é parte de um conto feito pela proprietária do blog Strawberry Kiss e por lá postado, tudo devido a um meme. Detalhe: Além de fazer a historinha, era preciso arranjar uma maneira de citar na narrativa os blogs que herdariam a missão. Alguém ainda duvida que a expressão felis catus veio parar aí com segundíssimas intenções?

Não preciso dizer que terei que fazer a mesma coisa agora, o que para mim é um prazer. Conheci esse meme no Makes Me Dream, blog que indicou o blog que indicou o meu para fazer tal tarefa. Sei que não sou muito de aceitar memes, mas por este me apaixonei, fiz questão de recebê-lo nesta nobre casa cibernética. Aliás, nada como escrever para afastar por um tempo as nuvens negras que teimam em se instalar em minha alma - não é nem mais pelo Flynn, já está superado, é que os últimos acontecimentos por estas bandas continuam a ser sombrios, sombras. Escrever me faz um bem tamanho...

O que vocês lerão a seguir é um love story, segundo o que pede o meme. Caso você tenha um blog e encontre (atenção ao que estiver em negrito) o nome ou alguma expressão referente a ele no conto, já sabe.

Anjo resolveu olhar a paisagem que se exibia pela janela, ao invés de começar logo. Estava um belo dia lá fora, um céu de azul inigualável, sem nuvens, parecendo um manto que envolve a todos com sua calma e placidez típicas. Porém, não se demorou muito, como se o papel pudesse ser impaciente mas... objetos não se impacientam. É ela que queria logo marcá-lo à tinta de caneta com aquele nome no qual ela não parava de pensar.

Miguel,

A caneta imobilizou-se entre seus dedos. Agora, como iniciar o texto? Embora soubesse exatamente o que iria colocar, a introdução é sempre um problema. Anjo curvou a cabeça de tal forma que esta quase encostou na folha vazia na mesa. Só levantou quando, resoluta, cruzou as pernas e, ficando com a coluna bem retilínea, principiou.

Não vou perguntar como você está, se os cachorros estão sendo bem cuidados, se anda visitando bastante sua mãe... Amigo, tenho a virtude de acompanhar sempre os passos dos quais tenho estima, sendo que ultimamente não estou mais podendo acompanhar os passos de outra pessoa que não seja você.

Romântico, não é? Mas... poderia ser de outra forma?

Anjo levantou-se novamente, mas não chegou a dar um passo sequer. Só queria mesmo olhar para os lados, gesto sem finalidade alguma.

Mas não se preucupe. Sou como você, não gosto muito do romantismo chorão e meloso, aquele do "Eu te amo mais do que a minha própria vida e sindo que meu coração vai deixar de bater se você for embora buááááá!" Puxa, me dá cócegas! Mas você sabe que isso não me impede de ser romântica, mas de forma mais sutil e delicada, e de transformar o sonho em realidade, sonho de te dizer, mesmo que você fique cansado de ouvir, eu te amo!

Dizer essas três palavrinhas tão simples é um sonho que tenho sempre. Também pudera, você me faz sonhar. Se não fizesse eu não estaria apaixonada por você.

Deu uma olhada nos parágrafos que acabara de escrever e não gostou. Não estava ruim, mas Anjo havia dito que não gostava de romantismo meloso e, aos olhos da própria, o que se seguiu depois parecia deveras meloso. Fez um "não" com a cabeça e até pensou em riscar tudo aquilo, mas reconsiderou. Não ficaria bem manchar uma carta.

Sabe, Miguel, o ato de eu estar escrevendo agora esta carta para você me deu vontade de saber como é a sua letra, o jeito que você escreve, como segura o lápis. Você conhece o meu escrever, mas não conheço o seu. Nessas horas seria bom se os anos pudessem regredir e eu pudesse ser a Paula, aquela ex-namorada sua, só que, claro, sem a falsidade dela. Ou então a Juliana, que era tão leal a você mas preferiu a Suécia. Você sempre mandava cartas para elas, lembra? Não pense que isso é ciúme, não tenho sequer o direito de sentir ciúme. Eu sei que você não pode mandar cartas para mim.

A parte triste: Ele não podia mandar cartas. O pior é que esse não era o único problema. Anjo se permitiu apenas soltar um suspiro pesado e mudar de assunto antes que os olhos resolvessem marejar.

Falando em ciúmes, apesar de não dever, esse monstro ora inofensivo ora perigoso fica se remexendo em mim toda vez que você entra naquele tal de Twitter! Quando você começou com isso, as pessoas que te "seguiam" eram todas do sexo feminino e tinha horas em que uma desandava a dizer "Tem um gato aqui". Sério, Miguel, minha vontade era de te arrancar da cadeira e arrastar você até aqui, bem longe daquelas atiradas.

A minha sorte, não, nossa sorte é que aderiram a esse Twitter alguns de seus amigos, como o Medeiros, o D'Auria e o Lentz. Como na maioria das vezes você conversa mais com eles, me sinto mais tranquila. Menos atenção para aquelas maritacas. Isso deve doer nelas como uma marretada! Ops, eu não deveria sentir prazer com a dor dos outros...

Anjo abandonou a carta para ir rezar em um canto e pedir perdão pelo o que acabara de colocar na carta. Realmente, não deveria ter feito isso. Tranquilizou-se pensando que aquilo era necessário, para ganhar uma faceta mais humana aos olhos de Miguel. Depois, saiu do recinto e só voltou quando tinha um copo d'água quase vazio na mão. Porém, não retomou a escrita logo de imediato, apenas deixou o copo em cima da mesinha, ao lado do papel.

Voltou para a janela. O céu não tinha mudado nada e não tinha motivo nenhuma para mudar. Ele era sempre assim. Na verdade, Anjo, desde que se dera por gente, era encantada por aquele céu. Tanto que, se pudesse, não tardaria em dar um jeito de mostrá-lo à Miguel que, ela sabia, também gostava de um céu assim. Já que o céu se meteu na história, Anjo voltou para a mesinha e, sem se sentar...

O céu está muito lindo aqui hoje. Se você pudesse...

Pela primeira, Anjo pensou que aquilo era injusto. Ela poderia mostrar aquele céu magnífico para quem quisesse. Para ela mesma, para a Claudete, para a Sueli... Poderia mostrar também para a Majoli, quem sabe assim ela não larga aquele jornal da lua, já amassado de tanto ser lido. Porém, para Miguel, nada. Do mesmo jeito que ele não pode mandar cartas. Anjo foi sentando-se devagar na cadeira, a medida que esses pensamentos iam lhe ocorrendo. Sem dar por si, a caneta encostava no papel...

Eu queria tanto que você pudesse fazer certas coisas e que eu também pudesse... em nome do nosso amor. Veja o caso da Carissa, sua amiga, e do namorado dela. Eles... Por que tem que ser assim?...

Por que, por que, por que tinha que tocar nessa parte? Anjo perguntava-se se gostava de sofrer ou de, no mínimo, de deixar os olhos extremamente úmidos. O pior é que se revoltara na carta, mas era algo que dava para consertar. Riscar não seria preciso.

Mas Deus sabe o que faz. E tudo o que Ele faz não é porque ele é um pai cruel e vingativo que se alimenta do sofrimento de seus filhos, mas sim porque quer que nos tornemos pessoas melhores.

Agora já era tarde demais. Um pingo saído dos olhos de Anjo conseguiu molhar o papel. De certa forama, não dava mais para se conter.

Que o Senhor te ilumine, Miguel. E não se esqueça de mim. Não se esqueça do nosso amor.

Que você seja sempre feliz.

Anjo.

Sim, era melhor terminar. Havia mais algo a ser dito? Não, pelo visto não. Anjo rapidamente dobrou a carta e, fungando um pouco, retornou à janela por onde repetidas vezes espreitara o céu do dia. Só que, desta vez, ela olhou para baixo, para as nuvens.

Anjo saiu pela janela, foi quando, iluminadas pelo sol, as belas asas da garota apareciam maiores e mais belas do que costumavam ser. E, de pé sobre as nuvens pesadas, Anjo rasgou a carta. Não era um gesto de descarte, pois os pequenos pedaços de papel seriam conduzidos pela chuva até lá embaixo, e se misturariam com os quadradinhos verdes e amarelos que teimavam em serem lançados para cima, durante o desfile de 7 de setembro, rivalizando com o temporal que estava a cair.

E a mensagem alcançaria seu ponto de chegada, um homem que segurava um guarda chuva, destacado na arquibancada onde as outras pessoas procuravam se proteger com bolsas ou pastas. Esse homem sorrira serenamente em um dado momento: era o amor que provinha dela, de seu Anjo.


 


Escrito por JuLiAnA HeLeNa às 16h16
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13.09.2009

São Gonçalo

Neste ano, não viajei em janeiro, não viajei em julho, mas o fiz em setembro. Como é que pode?... Será que foi presente antecipado de aniversário (a data está muito próxima!)?

Ontem, sábado dia 12, saí do colégio antes do que deveria, alisei o cabelo, meti-me em um ônibus junto com a mamãe e grande parte dos colegas de trabalho dela, partimos para uma cidade chamada São Gonçalo. Era uma novidade até certo ponto, pois São Gonçalo ficava mais ao sul do Piauí e, desde então, eu só rumava em direção ao norte. Logicamente a estrada não era a mesma que eu costumava pegar para sumir de Teresina por um tempo.

Na verdade, no que diz respeito à mamãe, a viagem era a trabalho. São Gonçalo é o município que possui, dentre todos os municípios brasileiros, o maior percentual de pessoas com deficiência, por volta de 33% da população, coisa ocorrida devido ao alto índice de casamentos consanguíneos por lá - parece que eles não gostam muito de dividir heranças. Então, decidiu-se que era melhor deixar toda a cidade acessível a essas pessoas, para que elas pudessem ter uma vida melhor.

E foi o que aconteceu. O que havia de rampa (feita da maneira correta) e piso tátil nas calçadas não era brincadeira. E parece que não é só no campo da acessibilidade onde estão as inovações: as luminárias da avenida principal da cidade funcionam à base sabe de quê? Energia solar. Era aquele quadradinho no topo de postezito e a lâmpada logo abaixo.

Parece que um melhor acolhimento aos portadores de deficiência era só o que faltava por lá. São Gonçalo é um doce! É bem organizada, tem de tudo em suas lojinhas, oferece bons lanches como nenhuma outra cidade interiorana poderia oferecer... Aliás, na lanchonete que visitei, havia o desenho de uma índia na parede, estilo mangá e muito bem feito. Magnífico! Fora o cemitério, que se você der uma primeira olhada, nem vai achar que é um cemitério. Não possui o ar decadente dos demais.

Pelo o que vi, e meu bonequinho Grover é testemunha, daria para se viver muito bem em São Gonçalo. À noite, vi o governador "cortar", junto aos portadores de deficiência do local, a fita que inaugurava a perfeita acessibilidade são-gonçalense.


 


Escrito por JuLiAnA HeLeNa às 21h32
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