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27.09.2009

Heterosemánticos


Panchito, personagem da Disney

Feliz, não é? Claro, pois seu amigo mexicano está vindo te visitar. Aliás, acho que... está ouvindo um barulho de turbina de avião? E não é que é o avião de seu amigo? Até que enfim! Se bem que "até que enfim" digo eu, ou melhor, o povo que passa por você dentro desse aeroporto. Já estão cansados de ver esse seu sorriso caricaturalmente enorme e cheio de dentes amarelados.

E olha seu amigo mexicano aí, já está na sala de desembarque esperando a bagagem. E você doido para dar um abração nele, há quanto tempo vocês não se veem. Sim, sim, ele já pegou as malas e está indo na sua direção. Antes de correr para o abraço, no entanto, você repara que uma das malas dele é bem estranha, mais parece uma gaiolinha. Após os cumprimentos iniciais, você pergunta ao seu amigo mexicano sobre essa mala. Ele lhe responde que havia uma pet shop no caminho para o Aeroporto Internacional Benito Juárez, lá na Cidade do México, e que não resistiu aos encantos de um cachorro que viu na tal lojinha. Acabou levando.

Seu grande paixonado por cachorros! Até posso sentir o quanto que a empolgação está agitando seu corpo! Seu amigo mexicano também percebeu e ergueu a gaiolinha até a altura de seus olhos. Você a toma com as duas mãos e suas pupilas dilatam-se para apreciar a fofura e a beleza daquele magnífico exemplar de... gato? Bem, você sabe que cachorro, para seu amigo mexicano, significa filhote. Se fosse realmente o cachorro em que você estava pensando, seria um perro.

Você murcha, mas não por muito tempo. Logo você está andando pelo pátio do aeroporto, com seu amigo mexicano ao lado, carregando todas as malas dele, inclusive a que tem Damián, o gatinho, dentro. E seu amigo mexicano vai falando que conseguiu abrir uma oficina em um importante prédio da Cidade do México. Você supreende-se, como é que ele, um contador bem sucedido, resolve mudar de ramo assim sem mais nem menos e resolve cuidar de carros problemáticos? Um pouco depois você entende que não ocorreu mudança alguma e que oficina é escritório. A essa altura, vocês já estão no carro que você emplacou ontem e indo para a casa que você alugou há um mês porque estava cansado daquele apartamento caixinha-de-fósforo.

Seu amigo mexicano já tinha mudado de assunto quando você parou o carro. Falava sobre uma namorada nova, com quem prometeu de conversar no msm assim que chegasse no Brasil. Ele te pergunta se você tem um computador... Que idiota, claro que você tem. E ligar o computador é a primeira coisa que seu amigo mexicano faz após entrar na tua casa. Você vai para a cozinha preparar um café para vocês dois, enquanto isso seu amigo mexicano comenta contigo (ele está na sala, logo ao lado) o caso de quando deu uma bela cinta cor-de-rosa para ela usar nos cabelos. Desde quando se usam cintas no cabelo, você se pergunta. Desde quanto o cara que inventou o espanhou determinou que cinta significa fita.

Você acabou ficando curioso para saber quem é essa que andou roubando o coração de seu amigo mexicano. Sorte sua que ele lhe mostra uma foto dela, uma bela rubia, com uma expressão tão doce. Mas, espera, você vai logo vai corrigindo seu amigo porque a moça não é ruiva, é loira. Só que ele estava correto, quando ele falou rubia, ele quis dizer loira. Que belo mico você pagou, hein! É nisso que dá ensinar padre a rezar ave-maria!

Você fica assistindo a conversa entre seu amigo mexicano e o amorzinho dele. Numa posição privilegiada, frise-se. Quando ele finalmente deixou o teu computador em paz, você começou a mostrar todos os cantos da sua casa para seu hóspede. Sim, seu hóspede, pois a casa tam um quarto que é só para os visitantes e você o preparou especialmente para seu amigo mexicano. Mas, espera! Você se lembra que não limpou as cortinhas e, pior, seu amigo passou o dedo nelas e reparou!

É, de certa forma, chato ouvir seu amigo mexicano dizer que a cortina está cheia de polvo. Não precisa relembrar-te de que isso significa pó antes que você pense que ela esteja infestada daqueles bichinhos cheios de tentáculos que você pensava viverem apenas no mar. Seu amigo ainda frisa que você precisa acordarse para essas coisas. Você promete que, dá próxima vez, não acordará mas, sim, se lembrará, até porque ele quer mesmo é que você se lembre. Vocês sempre foram assim: ele um cara que diz tudo na lata e você um desleixado com a escoba.

Escoba? Vassoura, criatura!

Ainda bem que esses momentos tensos duram pouco. Veja, logo vocês dois estão rindo, comentando sobre mil coisas. Acho até que chegou a sua vez de falar sobre tua própria vida, afinal, seu amigo mexicano já falara tanto. Ele fica admirado quando você conta que tem uma grande possibilidade de ganhar uma beca para uma universidade no exterior. Você sabe que ambos sabem que você pode ganhar uma bolsa de estudos, então apenas sorri.

E chega uma hora em que seu amigo mexicano fica curioso para ver o que se passa nos jornais brasileiros. Principalmente se for sobre o México, desde que não fale de gripe suína ou coisas assim. Você, solícito, entrega-lhe o jornal do dia. Seu amigo mal abre o diário e esboça uma reação de surpresa ao perceber em uma foto que um certo político está pelado! Meu caro, você chega a gritar, escandalizado. Como pode um político pelado, e justo esse, um sujeito tão sério! Você arranca o jornal das mãos do seu amigo e olha, mas não vê... nada demais.

Acontece que, na última vez em que o seu amigo mexicano veio ao Brasil, o político em questão ainda tinha cabelo, sendo que, agora, o mesmo político está careca. Pelado = careca, se é que você me entende. Agora vá buscar um vaso de água com açúcar para seu amigo, olha o estado em que você o deixou... Ei, eu quis dizer copo de água, não é um vaso de verdade! Meu Deus, como se não bastasse o grito terrível que você tem!

Quando a noite desce, enfim você acaba de preparar um exquisito jantar para vocês dois. Bem, no sentido de que tudo está delicioso, certo? Há alguns pratos brasileiros e outros mexicanos, neste últimos você carregou na salsa, do jeito que ele gosta. Espero... vai ver que você se esquece de que estou falando do molho... Ah, era? Ainda bem. Seu amigo mexicano já está te esperando na mesa.

No entanto, seu amigo fica um pouco pensativo mesmo com toda aquela comida diante de si. É que ele estava com vontade de experimentar uma picanha, bem ao estilo brasileiro, e com muita grasa. Ei, mas ninguém come carne com graxa! Claro que ninguém come isso porque grasa é gordura. Seu amigo quer morrer de hipertensão e não de intoxicação, anta.

Epa, ainda faltam os cubiertos! Você já está indo buscá-los quando seu amigo mexicano te chama, sorrindo, e diz que a cozinha é para o outro lado. Como cubiertos significa talheres, você concorda e muda de direção. Vocês não jantam em silêncio, sentem tanto prazer na presença um do outro que voltam a conversar. Seu amigo começa a falar sobre uma empresa na qual estava trabalhando, e que anda tendo problemas no presupuesto. Coitada, são problemas no orçamento. Se continuar assim, é quase certo o presunto de que ela irá fechar.

Puxa, seu amigo deve estar mesmo com muita fome, para ter encaixado comida em um assunto que não tem nada a ver. Também, só tomou um cafezinho desde que chegou e sabe-se lá o que é servido nesses aviões. No fim das contas, você realmente não entendeu nada, pois presunto, isto sim, significa pressuposto.

Vocês passaram um tempo de barriga para cima após a janta, assistindo televisão. Porém, a noite ainda tem muitas horas pela frente. E eis que você tem uma ideia e diz para seu amigo mexicano para irem para o quarto. Não o para as visitas, mas o que te pertence mesmo. Você o deixa de mão e observando as coisas do cômodo enquanto procura alguma coisa nas fileiras de DVD's. Em um dado momento, você se vira para seu amigo, com o objeto procurado em mãos e pergunta:

"Vamos brincar?"

Ei, Joãozinho das anedotas, sei que está lendo isto e não venha com pensamentos maldosos!... Bem, voltando para você, seu amigo e sua vida, o que está em suas mãos é um DVD de Sandy & Júnior, que em seguida você coloca no aparelho e então começa a soar a música: "Vamo pulá, vamo pulá, vamo pulá, vamo pulá! Vamo pulá..." Pois pular significa brincar, e vocês sempre foram muito apreciadores de músicas animadas.

Vendo você e seu amigo mexicano pulando pelo chão e em cima da cama, a vontade que me dá é de tachá-los de loucos. Mas não posso fazer isso, afinal este é o jeito de vocês e ambos só têm uma semana para curtirem um ao outro, e possuem o direito de fazerem isso da maneira que acharem mais conveniente. Até porque amizade é assim mesmo... só quem consegue sentir essa magia, consegue entrar na mesma sintonia, e quando você brinca, brinca até suar...


P.S.: O título desta postagem está em espanhol, foi retirado do meu livro, o que trata de tal matéria. É um termo usado para denominar aquelas palavras da línguas castelhana que, embora possuam grafia semelhante a outra no português, tem significado completamente diferente.



Escrito por JuLiAnA HeLeNa às 20h46
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