

BRASIL, Nordeste, TERESINA, Mulher, de 15 a 19 anos, Portuguese, English, Livros, Política, do Garibaldo, da Ino Y. e de bichanos!!!
Mamãe e eu entramos no supermercado HiperBompreço, do Teresina Shopping. Estava um verdadeiro formigueiro de gente naquele lugar, eram tantos e para todos os lados que pareciam uma coisa só, feito água do mar ondulando-se. E, bem na entrada, uma coluna enorme, repleta de brinquedos, emergia no meio do mar de pessoas. Atrás dela ainda teriam vários metros em linha reta com várias ofertas dos mais variados brinquedos e seus "deslumbrantes" preços. É que seria o Dia das Crianças depois de amanhã.
Nós não estávamos atrás de brinquedo. Eu tenho 17 anos e meu irmão tem 14, por acaso ainda somos crianças? A missão era arranjar algumas coisas que seriam necessárias em uma reunião de amigos, que faríamos no dia seguinte. Mas uma outra coisa pedia urgência: Eu acabava de voltar de uma prova no colégio e, além disso, fiquei mais de uma hora esperando meus pais me buscarem porque não atendiam nem os celulares deles nem o telefone de casa. Definitivamente, eu precisava de um lanchinho.
Já estava decidido que faríamos uma pausa para comer na lanchonete do supermercado. Sim, cheguei a namorar o McDonald's (e os fofos bichaninhos de 10cm que estão vindo no McLanche Feliz), mas aquelas filas ficam terríveis não apenas nas noites de sábado, mas nas de todos os dias da semana. Não sei porque as pessoas preferem ir ao shopping à noite...
Mas havia um problema. Mamãe disse que tínhamos que pôr alguma coisa no carrinho, senão, mesmo que ele estivesse bem do nosso lado, alguém poderia aparecer, pensar que ninguém está usando e levá-lo embora. Nem deixei passar um ou dois segundos, apenas estendi o braço para o lado, apanhei um enorme cachorro preto de pelúcia e o rebolei no carrinho. Está resolvido!
Antes de seguir em frente, dei uma olhada no placa que dizia o preço de toda aquela fauna de pelúcia que estava no "cestão" - não posso chamar aquilo de prateleira - de onde tirei o cachorro. "15x de R$ 3,99", o "15x" bem pequeninho e o "R$ 3,99" bem grandão. Truque para laçar o inocente consumidor, se bem que é um tanto óbvio que um bichinho daqueles, com mais de 50cm de altura, não poderia sair por um preço mais baixo. Ainda coloquei uma bola de futebol no carrinho, também para preencher espaço.
Foi à custo que encontramos uma mesinha vazia, a do cantinho. Meu lanche foi basicamente a mesma coisa que é lá no meu colégio: um suco Kapo e um salgado. Melhor dizendo, seria, pois pedi também aquele docinho conhecido como bem-casado. Gosto de misturar o gosto do doce com o do sal, é interessante para mim. Mamãe também pediu um salgado. E uma garrafinha de água.
Mamãe comentou durante o momento que tínhamos escolhido os brinquedos mais feios para preencher o carrinho. Percebi que ela se referiu especialmente a cachorro de pelúcia. Para falar a verdade, não o achei tão feio assim... Ele não era recoberto daquele tecido que imita pelo, mas conseguia ser fofo mesmo assim. E possuía uns olhos bem pidões, pareciam até aqueles olhos de personagem de desenho japonês. Reparei noutra coisa, a bola... Combinavam! Tanto o cachorro quanto a bola tinham preto, bege e branco dentre suas cores, é como se eu tivesse feito uma escolha inconsciente, ou algo assim.
Terminamos, pegamos o carrinho e fomos passando de corredor em corredor atrás das coisas que queríamos. Enfim, chegou a hora de eu abandonar aqueles brinquedos "enchedores de linguiça" em algum lugar. Deixei-os em uma prateleira de produtos outros (leia-se: que não eram brinquedos) e fui ajudar mamãe com os ítens da lista. Reparei que, enquanto analisávamos os tapetes para porta de banheiro, aquele cachorrinho preto de pelúcia e olhos pidões não estava ficando sozinho.
Primeiro, chegou uma família de umas 3 pessoas. Eles se detiveram na prateleira. A menina mais nova pegou o cachorro, o abraçou por uns instantes e colocou-o de volta onde o achou. A menina mais velha, talvez uma adolescente da minha idade, também fez a mesma coisa e ainda acrescentou "Vamos levar tudo isso aqui!", referindo-se aos produtos da prateleira, incluindo o cachorro. No entanto, também o largou.
Uns minutos mais tarde, apareceu um garotinho moreno de uns 6 ou 7 anos, que também abraçou o cachorro de pelúcia. E foi um abraço ainda mais forte e presente do que os dois primeiros. Da categoria daqueles abraços em que você aperta, aperta e ainda balança um pouco para os lados. Mas o garoto também não levou o cachorro.
Admito, acabei mesmo ficando com dó do cachorrinho. Me afastei da mamãe e peguei-o de volta, só que me dirigi em seguida para o corredor principal do supermercado. A intenção era deixá-lo no "cestão" de onde o tirei. É que parecia um tanto injusto deixar um produto no meio de outros que não lhe são aparentados, isso diminui substancialmente as chances de alguém pegar esse mesmo produto e comprá-lo. Devolver o cachorro ao seu canto, onde estava seu preço, seria dar-lhe de volta a oportunidade de fazer uma pessoa feliz.
Ainda estava o mesmo amontoado de gente naquele lugar. Não me senti desorientada, eu já havia andado tantas vezes naquele supermercado que seria difícil eu perder-me alí. O único risco era a mamãe sair de onde ela estava. Talvez por causa disso, fiquei com um pouco de pressa e não consegui achar o "cestão". Devo ter me esquecido a localização exata dele. Deixei então o cachorro em uma outra prateleira, repleta de variados bichos de pelúcia.
E desprenderam-se meu destino e o do cachorrinho preto de pelúcia e olhos pidões.
Para minha sorte, mamãe ainda estava entretida com alguns produtos quando eu voltei. Nem reparou que eu tinha me afastado. Até trouxe dois espelhos, eram um ítem que estava na lista, para servir de desculpa. Quanto à bola, nem me importei mais com ela depois daquele momento. Continuou onde a havia deixado até não sei quando.
Não encontramos no HiperBompreço quase nada do que estava na lista. Pegamos fila grande no caixa e depois um táxi, e fomos para o Comercial Carvalho do Riverside Shopping, onde as chances de achar o que precisávamos aumentavam exponencialmente. E aumentaram. E achamos. Ainda bem.
Não sei se o cachorro de pelúcia dormiu no supermercado ou se arranjou dono ainda naquele dia. Ou se o conseguiu nos dias que se seguiram, caso tiver ocorrido a primeira opção. Mas a pena não continua, claro que não. Fiz o que tinha de ser feito. Além do mais, pra quê eu o levaria para minha casa? Gosto demais de bichos de pelúcia, meu quarto está cheio deles, mas este não passaria de um gasto nada planejado. Está comprovado que esse tipo de gasto pode matar até.
Também, como já falei, não sou nenhuma criança.