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25.10.2009

O copinho de iogurte

Imagino que poucos tenham essa sorte, mas quando eu acordei pela primeira vez, eu vi uma linda moça sorrindo para mim... que me passou para outra moça, que me deixou numa esteira rolante. Eu era mais um copinho de iogurte que tinha acabado de ser bem vindo ao mundo. O momento em que comecei a existir! É uma pena que as pessoas não podem ter retida na memória tão importante lembrança, mas eu não sou uma pessoa, sou um copinho de iogurte, comigo é diferente.

À minha frente e atrás de mim, na esteira, haviam vários copinhos iguais a mim, que varriam com o olhar tudo que a vista pudesse alcançar. Eu fazia o mesmo, obviamente. Todos nós procurávamos entender o que estava acontecendo e o que era tudo aquilo que nos cercava. Ainda bem (ainda bem para o pessoal da fábrica) que nenhum de nós tinha pernas, pois se fosse assim debandaríamos dalí e acabaríamos causando confusão de tanto que o nosso nível de curiosidade estava alto.

Numa hora, senti que fiquei mais pesado. Olhei para trás e vi que um tubo despejava dentro dos copinhos um líquido branco, ou será que era bege-claro? Depois, fecharam minha abertura com alguma coisa que parecia ser de alumínio e, passado um metro, parece que carimbaram alguma coisa nessa minha tampa que eu acabara de ganhar. Foi apenas então que uma outra mão me retirou da esteira, e me colocou em uma caixa. Agora eu me via cercado de "irmãozinhos" por todos os lados.

Não sei ao certo quanto tempo eu fiquei naquele ambiente apertado e escuro. Escuro sim, porque depois fecharam a caixa. Senti que a mesma foi passando de mão e mão. Não entendi aquilo, para onde estavam me levando? Se estanhei isso, estranhei mais ainda quando pararam de carregar minha caixa e ouvi barulho de portas se fechando. Mais alguns ruídos depois, eu conheci alguém que iria ser um companheiro extremamente fiel para mim: o frio.

As pessoas se sentiriam incomodadas em uma temperatura daquelas, mas tenho que dizer que me senti bastante confortavel. E, pelas caras dos copinhos de iogurte que andavam comigo, parece que eles estavam se sentindo muito bem também. Deve ser algo inerente à nossa classe. Copos de iogurte são criados com o objetivo de proteger o conteúdo que trazem dentro, e o frio é alguém que mandam para nos ajudar nessa missão. Me assustei com o ruído das portas. Elas estavam se abrindo.

Voltaram a carregar a caixa, mas por pouco tempo. Parece que a colocaram em cima de alguma coisa que se deslocava macio pelo espaço (um carrinho de mão?).

Pensando melhor sobre o tempo, acho que passei vários dias dentro da caixa. Tanto que quase ceguei com a intensidade da luz que invadiu a caixa quando uma pessoa descerrou as duas folhas de papelão. E nem era uma luz tão forte assim, eu é que havia passado tempo demais no escuro. Mas o lugar onde eu estava tinha várias lâmpadas no teto, não posso negar. A mesma pessoa que abriu a caixa pegou um a um dos meus coleguinhas e os colocou em um canto que eu não estava vendo onde era. Só quando chegou a minha vez é que vi, admirado, que era uma prateleira onde haviam não apenas copinhos de iogurte iguais a mim, mas também outros que eram só parecidos, e mais outros que nem copos eram.

Já ajeitado em meu lugar, pude ver também outras prateleiras onde estavam outros recipientes que chegavam a ser totalmente diferentes de mim. Uns até sequer eram recipientes de alguma coisa: eram o próprio produto. E descobri que aquilo que eu carregava se chamava produto e que as pessoas viviam a vistoriar todas aquelas prateleiras atrás dessas coisas que eram produto, como o iogurte. Por isso, eu tinha o sagrado dever de proteger o que eu tinha dentro de mim, custe o que custasse.

Passei alguns dias na prateleira, esperando alguém me pegar dalí. Porém, não me incomodei ao ver os meus companheiros de fabricação serem escolhidos pelas pessoas e eu não. Ora, estava feliz, junto dos meus e meu grande amigo, o frio, também estava comigo. Por que eu desejaria sair dalí assim tão cedo? Um dia eu teria de sair, é meu destino, mas tudo bem enquanto ele não chegasse. Então, aconteceu de, numa tarde, uma mulher me apanhou, me olhou de cima a baixo e me colocou no carrinho dela. Assim, eu me despedia da prateleira que me recebera tão bem, e que se afastava, afastava, afastava, afastava...

Naquilo que chamam de caixa, mas que nem se parece com a caixa onde fiquei anteriormente, encontrei uma coisa que me pareceu bastante familiar: uma esteira! Mas ela era mais curta do que as que eu conhecia. O moço do caixa me pegou e me passou na frente de uma máquina que fazia um barulhinho engraçado, e depois me jogou para o outro lado. Lá, outro moço me pegou também e me colocou dentro de uma sacola, junto de um pote de margarina, um outro copo de iogurte e um pacote de salsichas. A sacola era translúcida o suficiente para que eu visse que estava sendo levado para o compartimento traseiro de uma coisa grande e bem esquisita (um carro popular?). Compartimento bem escuro também.

Pensei que passaria dias alí dentro tal qual eu havia passado dentro de um caminhão que me trouxera de Osasco, São Paulo - fiquei sabendo posteriomente desses detalhes. Mas a viagem desta vez foi bem mais rápida. Porém, o tempo foi o suficiente para que eu sentisse saudade de quem deixei lá na prateleira, principalmente do frio. Me deprimia cogitar que nunca mais o veria mas... eis que eu o encontro novamente! A mulher que me comprou abriu uma, tipo, enorme caixa branca e me colocou lá dentro, onde o frio me esperava de braços abertos. Eu não tinha a luminosidade comigo, como antes, mas o frio nunca me deixou só.

Por várias vezes, achei que ficaria alí para sempre, feliz, mas de lá - o impensável - me tiraram também. Uma pessoa me colocou sobre uma mesa e arrancou minha tampa, e com um objeto longo com uma extremidade meio arredondada (uma colher?), ela foi consumindo-me o conteúdo. Lentamente, fui ficando leve, achei boa essa sensação de estar voltando ao peso de antes. Mas comecei a me preucupar quando me dei conta de que a mesma pessoa começou a me levar para algum lugar, e que esse lugar não era a geladeira...

Frio...

Minha missão era a de proteger 300g de iogurte sabor mel e granola, mas eu não sabia que iogurte era um produto cuja função era de levar energia às pessoas, função que é também a da carne, a do arroz e a do pão. Mas, mesmo que eu soubesse, nada poderia fazer. O iogurte acabou-se, fez o que havia de ser feito. Paralelamente, a minha missão também acabava alí. E enquanto meu conteúdo transformava-se em mil coisas dentro do organismo humano, eu acabei por me tornar um imprestável, que só servia para ocupar espaço. Descartaram-me. 

Eu, sem minha tampa e desfigurado por ter sido um pouco amassado, fui parar em um lugar nauseabundo, infecto e quente. É, nem o frio estaria ao meu lado, ah, se eu soubesse... Ao mesmo tempo, uns monstros vinham me atazanar. Uns eram bem grandes, pretos e ficavam fazendo círculos no céu antes de me atacarem. Outros, também pretos, mas menores e nem por isso menos pestilentos, ficavam no chão mesmo. E tudo indicava que, ali sim, seria minha morada definitiva, meu inferno. Entre fedores, incômodos e pisadas de pessoas que sei lá porquê passavam por alí, desejei nunca ter existido, se era para tudo acabar assim. Ou, ao menos, que eu tivesse sido... o iogurte.

Fiquei tão absorvido pela minha própria dor que mal notei que uma pessoa me apanhou dalí. Quando me dei conta, estava dentro de um carrinho onde estavam outros objetos e plástico. E de metal, separados estes por uma divisória de papelão. Fiquei abobado, não acabou ainda? A pessoa e seu carrinho, e eu dentro, atravessaram várias montanhas de lixo amontoado até que saímos do aterro onde me jogaram. Fui levado para uma casinha próxima, onde outra pessoa me lavou e me colocou em uma caixa limpa. De fato, lá tudo exalava limpeza.

E vi na parede um símbolo estranho, três setas apontando umas para as outras. Ao lado, onde findava a parede, dois homens conversavam, e parecia ser a respeito do meu destino. Ah, isso eu precisava ouvir, senti minha vida dependia disso. A vontade foi tanta que, pela primeira vez, senti que me movi para outro canto por conta própria, mesmo que a distância fosse pouca. E conseguir ouvir. E entendi tudo.

Esta foi toda a minha história, pelo menos toda como sendo eu um copinho de iogurte, pois antes eu era plástico bruto, e mais antes ainda fui petróleo, que adomercia durante milhões de anos debaixo da terra. E antes de ser petróleo, eu fui um ser vivo como você, que respira, se alimenta e se locomove. Nunca imaginei que fui tantas coisas, mas agora eu sei. E queria ter descoberto isso antes.

Agora estou na frente de uma máquina cuja função é destruir o copinho de iogurte. Serei colocado lá dentro e rapidamente me pulverizarão, reduzindo-me a infinitos pequenos pedaços. Esses pedaços serão levados para um lugar onde serão reunidos e moldados, formando um novo objeto. O copinho de iogurte deixará de existir, e acordará sob outra forma, com uma nova missão, para uma nova odisséia. Na verdade, não existe fim, tudo são ciclos que, num determinado ponto, é preciso dormir para que despertemos no dia seguinte abençoados pela luz de um novo dia.

E chegou a minha hora. A hora de um reinício. A hora da esperança.



Escrito por JuLiAnA HeLeNa às 20h27
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Dia de caça

A caçadora trazia sua arma em uma das mãos e uma vasilha na outra, olhando em seguida para cima a fim de encontrar a presa. O azul do céu era filtrado pelas folhinhas arredondadas da árvore que sombreava o lugar. E eis que, pendendo em um galho, lá está, vermelha, grande, vistosa.

A caçadora levanta a comprida arma de madeira, e direciona a ponta de plástico para a presa. Ponta que não é ponta, não é para ferir, é para encurralar a presa que se debate insistentemente, enquanto a arma é balançada para forçar a vítima a largar seu porto seguro. E largou, cansada, cedendo à prática e à persistência da caçadora.

Finalizada a captura, a caçadora despejou seu mais novo triunfo na vasilha. E então acomodou sobre o ombro a vara de madeira com garrafa PET cortada ao meio na ponta, continuando a procura por outros cajus tão bonitos quanto aquele.



Escrito por JuLiAnA HeLeNa às 20h17
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