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01.11.2009

Jogue-me suas tranças!

Há uns meses, não sei quantos ao certo, vi no jornal O Dia a notícia de que a Disney iria lançar mais um filme sobre a Rapunzel, a garota de longas tranças. Era a princesa que faltava. Por coincidência, o nome do príncipe encantado da vez era o mesmo de uma pessoinha que eu conhecia. Melhor dizendo, de um bichaninho que eu conhecia...

Flynn pode já estar no andar de cima, mas nas minhas histórias ele está mais vivo do que nunca. E o manterei assim. Afinal, na ficção nada é impossível!

 

O serviçal saiu em disparada do salão do palácio, onde há pouco recebera uma ordem do rei Gato, que pedira para chamar-lhe o filho. Príncipe Flynn Frisól aniversariara no dia anterior, com direito a festa e tudo, e agora era preciso discutir um dever que o jovem bichano acabara ganhando junto com a nova idade. Voltou em minutos, com um belo felino branco ao lado. O príncipe.

- Sim, meu pai, o que foi? - Flynn correu em direção ao trono, deixando o serviçal para trás - Algum problema?

- Não se preucupe, está tudo correndo muito bem. Até o clima está bom hoje! - o rei Gato desceu da cadeira e aproximou-se do filho - Na verdade, Flynn, chamei-o para falarmos de seu futuro.

Flynn rodou os olhos. Já tinha ideia de qual seria o assunto.

- Como você bem sabe, e melhor do que ninguém, você acabou de se tornar um gato adulto. - as pontinhas dos dedos das patas dianteiras do rei se tocavam e se separavam várias vezes por minuto, tiquetaqueando - 2 anos de idade! Isso significa que já está na hora de iniciar a sua busca.

- A sua busca... - Flynn apenas repetiu.

- A busca por sua amada! Seu cavalo já foi preparado, pode começar a partir de hoje.

- Está bem, mas por que tenho que fazer isso? Por que tenho que sair do castelo? Aqui é cercado de casas por todos os lados, afinal, estamos em uma cidade. E nós passeamos todos os dias. Em qualquer dia desses, eu poderia esbarrar em uma gata e ela poderia olhar para mim, eu para ela, nós nos apaixonarmos e depois de algum tempo nos casarmos e darmos quantos netos você quiser... Por que tenho que ir embora?

- Flynn, meu filho... - o rei Gato suspirou, pondo em seguida a pata no ombro de Flynn - Quando eu ainda era príncipe, também não... achei muito boa a ideia... Mas se não tivesse sido assim, eu nunca teria encontrado sua mãe. Flynn, todos os príncipes quando chegam na sua idade fazem isso, eles saem pelo mundo, pecorrem lugares desconhecidos, conhecem coisas novas e, é claro, sempre chegam no castelo onde espera o amor de suas vidas. Então eles poem a amada no cavalo e voltam para casa. E, convenhamos, não é lindo?

- Realmente é, mas será que eu não poderia ficar aqui sentado, esperando com as minhas latinhas de comida para gato ou aj...

- Você não é o Garfield para ficar sentado com latinha de comida. - rei Gato ficou sério, e Flynn começou a achar que iniciou a frase do jeito errado - Você vai pegar suas coisas, montar naquele cavalo e ganhar o mundo. Se não é assim, você aprendeu esgrima e defesa pessoal, além de um monte de outras coisas, para quê então, meu filho? - e, suavizando a voz, retomando o sorriso - Flynn, vai ser a melhor coisa que terá feito em sua vida. Ande, que ela te espera!

A conversa ainda se arrastou por um bom tempo, mas, no fim das contas, era inútil. Antes que o dia acabasse, príncipe Flynn já estava na estrada, num ponto de onde podia ver a cidade ao longe. Conseguira se despedir bem dos seus, sem nenhuma pressa. Em troca, só recebeu felicitações pela aventura que iria empreender. Ao contrário deles, que estavam dominados por imensurável alegria, Flynn só conseguia ficar de cara amarrada, de vez em quando substituída por algo com um quê de inexpressivo. Ao menos, conseguira disfarçar isso bem aos amigos quando foi embora. Devem estar imaginando o quanto que o príncipe está empolgado... Ah, danem-se todos!

Flynn pensou no porquê de serem os príncipes a sair atrás de suas princesas e não o contrário. Sim, embora ninguém diga isso explicitamente, a "amada" que tanto falam obrigatoriamente tem que ser uma princesa. Vai que ele arranja uma simples faxineira...É o fim! Voltando à questão anterior, por que mesmo não poderia ser o contrário? Seria até mais cômodo. Ora, se nos bailes as damas vêm naturalmente para perto do príncipe, porque não poderia ser assim também quanto à viagem? Se os seres do sexo feminino não pudessem aguentar atravessar longas distâncias, as inúmeras famílias de imigrantes que chegam à cidade nunca poderiam trazer a matriarca e as filhas meninas. E eles sempre trazem. Aos montes.

Com o decorrer da viagem, Flynn começou a pensar menos e olhar mais o que aparecia pelo caminho. Nessa parte, o rei Gato tinha razão: o mundo não se cansaria de mostrar-lhe coisas novas e interessantes. De fato, o príncipe viu muita coisa, se hospedou em casas onde vivia gente muito afável e simpática e o cavalo teve de carregar também um saco cheio de bugigangas que Flynn comprava por onde passava. Mas nem tudo era bonito, ocorreu de Flynn ter que atravessar lugares de difícil (e arriscado) acesso e ter que lutar com ladrões.

Apesar dos eventuais contratempos, Flynn até começou a desejar que o grande amor da vida dele demorasse para aparecer porque a aventura estava sendo bastante proveitosa. Mas não era culpa dela, um dia ele teria que voltar. Acabaria o dinheiro, os mantimentos, a saudade estaria grande demais e então ele não teria mais condições de ir a lugar algum. Nesse momento, Flynn caía em si: Tinha que encontrá-la o quanto antes, para evitar ficar desamparado, solitário e sem poder regressar à casa. Nessa parte, um neurônio sombrio desenhava a figura de jornais de letras garrafais: "Príncipe encontra-se desaparecido há um ano". "...há três anos". "...há dez anos".

Flynn não se desesperava, apenas ficava triste. "...há vinte anos". "...há cinquenta anos". Naquela tristeza depressiva que o fazia ficar apenas pendendo no dorso de seu cavalo preto. É, o cavalo do Flynn era preto. Se fosse branco, como o da maioria dos príncipes, iria parecer que ele e o bichano eram uma coisa só.

Finalmente, o príncipe Flynn Frisól avistou um castelo, cujos tijolos pareciam ser de pedra bruta, que era cercado por um fosso de águas muito limpas e brilhantes. Não havia muro. Flynn não se atraveria a atravessar sozinho aquele fosso, gatos detestam água. Não se atreveria a não ser que tivesse uma canoa alí perto, mas não tinha. Esperou a noite chegar (seria mais fácil entrar sem ser visto) e decidiu encorajar o cavalo a mergulhar naquelas águas, o gato em cima. Ainda bem que o cavalo de Flynn sabia nadar. E melhor que fosse mesmo assim, nada mais adequado para príncipes aventureiros.

Não foi fácil. Num dado momento, Flynn teve que se equilibrar na cabeça do cavalo pois este não estava mais conseguindo manter o dorso acima do nível da água. Ainda assim, molhou o rabo. Mas eles conseguiram chegar no outro lado. A partir daí, seria só procurar a torre mais alta. Ora, elas sempre estão nas torres mais altas, que falta de criatividade! Por sorte, a torre em questão ficava na periferia da construção, e não no meio.

- Olá!!! - Flynn gritou para aquela janelinha que estava lá no alto - Olá!!!... OLÁ!!! SERÁ QUE ESTÁ TODO MUNDO DORMINDO AÍ?... Olá!!!

De repente, uma cabeçinha surgiu de lá. Cabeçinha de moçinha. Humana.

- Quem tá aí? - a voz parecia estar na estranha fronteira entre o grito e o cuidado para ninguém ouvir. Flynn ouviu.

- Flynn Frisól, o príncipe mais gato do mundo! - se isso fosse um trecho do programa CQC, Flynn iria ganhar um nariz de palhaço. A garota riu e respondeu algo tipo um "Estou vendo" - E você quem é?

- Rapuzel.

Os olhos de Flynn saltaram. Como assim, ela era a...? Flynn já tinha ouvido várias vezes a história dela, que ela era uma jovem princesa aprisionada por uma bruxa num quarto sem porta, na torre mais alta do castelo da tal feiticeira. Mas... era ou não era aquilo só mais uma historinha para dormir?

- Rapunzel mesmo?

- Rapunzel.

- Ei! Então me prove de que é mesmo Rapuzel. Jogue suas tranças!

De onde estava, Flynn conseguiu perceber que a garota possuia uma pequena trança no lado esquerdo. Não é suficiente, Rapunzel tinha tranças quilométricas, na cabeça do príncipe amadurecia a ideia de que aquela era só alguém dizendo ser Rapuzel ou, no máximo, uma homônima. Porém, qual não foi a surpresa de Flynn quando a moça abaixou-se, sumindo por um tempo das vistas do gato, e em seguida jogou uma trança grossa, enorme. A ponta chegou a tocar o chão.

- Agora você pode subir! - gritou a Rapunzel.

A moça, olhando para baixo, só conseguiu ver um gato branco de queixo caído que se recompôs pouco tempo depois, mas que mesmo assim continuou calado. Demorou para o par de olhos cor de âmbar que ele possuia voltar a fitá-la, interrogativos.

- Você é a Rapunzel, é fato. Então, a bruxa te mantém aí... Bom, se é assim, não sou eu que terei que subir mas, para se salvar, você é que teria que descer.

Rapunzel abaixou a cabeça. Não podia negar que Flynn tinha razão.

- Espere! Há outra janela aí?

- Ahn? - Rapunzel olhou para o lado e depois de volta para Flynn - Há, há sim!

- Então... - Flynn foi para outro lado da torre - Então, pule!

Debaixo da outra janela, havia uma armação de lona, sabe-se lá para quê. O que Flynn sabia é que aquela armação poderia sair-se bem como uma cama elástica. Rapuzel resistiu por um tempo, não parecia muito agradável a ideia de pular da torre. Flynn estão usou o argumento de que a bruxa sabia desse medo dela, a princesa, e que por isso achou que sua refém jamais escaparia. Mas agora era a hora de provar que a malvada estava errada.

Não bastou, já que Flynn teve que gastar um pouco mais de saliva até Rapunzel, finalmente, pular. A lona cumpriu bem o seu trabalho, pareceu que não iria aguentar o repentino peso da princesa, mas suportou perfeitamente. Da lona, Rapunzel escorregou até o lombo do cavalo de Flynn, que já estava preparado para recebê-la, conforme instruções do dono dadas ao companheiro. Agora, voltar!

Entranhamente, atravessar o fosso pareceu mais fácil na volta do que na ida. Será devido ao prazer pelo dever cumprido? Ou porque na primeira vez é mais complicado mesmo? Passado o obstáculo, o cavalo correu alguns quilômetros, o suficiente para que o castelo da bruxa ficasse do tamanho de uma caixa de sapatos. Então, se debruçou sobre a grama, e o príncipe Flynn Frisól se debruçou também, e a princesa Rapuzel se sentou, a saia molhada.

- Sabe, não sei como ainda não te agradeci... - ela parecia meio sem jeito - Muito obrigado!

Flynn olhou para ela, para aqueles olhos brilhantes, para aquele sorriso celestial, para aquele rosto delicado, para aqueles cabelos bem pretos, e sentiu... coisa nenhuma. Nada. Nem mesmo quando ela começou a coçar a cabeçinha dele, gesto bem típico dos humanos para com os gatos. Definitivamente, Flynn não se apaixonara. Mas isso esteve longe de desapontá-lo.

Rapunzel pegou um punhal que Flynn levava consigo e decidiu cortar a trança maior. Ela só atrapalharia agora que a princesinha estava livre. Flynn deixou-a cortar, mas deixou claro que mesmo assim levaria a trança, para provar que a moça que trazia era aquela pessoa que tantos ouviram falar. Feito um vitorioso, Flynn pensou em carregar a garota no colo até o cavalo, mas nosso príncipe era estupidamente pequeno. Foi ela que o carregou, e em seguida montou no cavalo. Assim, eles agora partiam para a cidade onde o rei Gato os esperava, e onde Flynn poderia encontrar, ao caminhar pelas ruas, quem sabe, aquela que ele procurou e não encontrou durante a viagem.



Escrito por JuLiAnA HeLeNa às 20h27
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